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– Alguns dos guardas que estavam com Ned em Porto Real acompanham este Lorde Beric – Catelyn se lembrou. – Que os deuses os protejam.

– Dondarrion e o sacerdote vermelho, que anda com ele, são suficientemente espertos para se protegerem, se o que se conta for verdade – disse o tio –, mas a história dos vassalos do seu pai é mais triste. Robb nunca devia ter deixado que partissem. Espalharam-se como codornas, cada um tentando proteger os seus, e é uma loucura, Cat, uma loucura. Jonos Bracken foi ferido na luta entre as ruínas do seu castelo, e seu sobrinho Hendry foi morto. Tytos Blackwood expulsou os Lannister das suas terras, mas levaram todas as vacas, porcos e grãos de cereais, não lhe deixaram nada para defender além do castelo de Corvarbor e um deserto esturricado. Os homens de Darry recapturaram a fortaleza do seu senhor, mas só a mantiveram durante uma quinzena, até Gregor Clegane cair sobre eles e passar a guarnição inteira na espada, incluindo o senhor.

Catelyn ficou horrorizada.

– Darry não passava de uma criança.

– Sim, e era também o último da sua linhagem. O rapaz teria dado um ótimo resgate, mas o que significa o ouro para um cão raivoso como Gregor Clegane? Juro que a cabeça daquela besta seria um nobre presente para todo o povo do reino.

Catelyn conhecia a péssima reputação de Sor Gregor, mas, mesmo assim…

– Não me fale de cabeças, tio. Cersei enfiou a de Ned num espigão sobre as muralhas da Fortaleza Vermelha, e a deixou lá para os corvos e as moscas.

Até agora era difícil para ela acreditar que ele tinha realmente ido. Algumas noites acordava na escuridão, meio adormecida, e por um momento esperava encontrá-lo lá, ao seu lado.

– Clegane não passa de um fantoche de Lorde Tywin.

Por sua vez, Catelyn acreditava que Tywin Lannister, Senhor de Rochedo Casterly, Protetor do Ocidente, pai da Rainha Cersei, de Sor Jaime, o Regicida, e de Tyrion, o Duende, e avô de Joffrey Baratheon, o recém-coroado rei menino, era o verdadeiro perigo.

– É verdade – admitiu Sor Brynden. – E Tywin Lannister não é nada tolo. Permanece a salvo atrás das muralhas de Harrenhal, alimentando sua tropa com as nossas colheitas e queimando aquilo que não rouba. Gregor não é o único cão que deixou à solta. Sor Amory Lorch também está em campo, e há ainda um mercenário qualquer de Qohor que prefere mutilar um homem a matá-lo. Vi o que deixam para trás. Aldeias inteiras queimadas, mulheres estupradas e mutiladas, crianças massacradas largadas, sem ser enterradas, para atrair lobos e cães selvagens… São coisas que nauseariam até os mortos.

– Quando Edmure ouvir isso, ficará furioso.

– E isso é exatamente o que Lorde Tywin deseja. Até o terror tem seu objetivo, Cat. Lannister quer nos atrair para a batalha.

– É provável que Robb lhe conceda esse desejo – Catelyn disse, irritada. – Aqui, parado, está inquieto como um gato, e Edmure, Grande-Jon e os outros vão incentivá-lo a avançar – seu filho conquistara duas grandes vitórias, esmagando Jaime Lannister no Bosque dos Murmúrios e desbaratando sua tropa sem líder junto às muralhas de Correrrio, na Batalha dos Acampamentos, mas, pelo modo como alguns dos seus vassalos falavam dele, parecia que era Aegon, o Conquistador, renascido.

Brynden Peixe Negro arqueou uma espessa sobrancelha grisalha:

– Mais tolos são. Minha primeira regra da guerra, Cat: nunca dar ao inimigo o que ele deseja. Lorde Tywin gostaria de lutar num campo à sua escolha. Quer que marchemos sobre Harrenhal.

– Harrenhal – todos os filhos do Tridente conheciam as histórias que se contavam de Harrenhal, a vasta fortaleza que o Rei Harren, o Negro, erguera junto às águas do Olho de Deus trezentos anos antes, quando os Sete Reinos eram mesmo sete reinos, e as terras fluviais governadas pelos homens de ferro das ilhas. Por orgulho, Harren desejara o salão mais elevado e as torres mais altas de todo o Westeros. Levara quarenta anos, sendo erguida como uma grande sombra na margem do lago, enquanto os exércitos de Harren saqueavam os vizinhos em busca de pedra, madeira, ouro e trabalhadores. Milhares de cativos morreram nas pedreiras, acorrentados aos trenós de carga ou trabalhando nas cinco torres colossais. Os homens congelavam no inverno e sufocavam no verão. Represeiros que resistiam há três mil anos eram abatidos para fazer vigas e esteios. Harren reduzira à miséria tanto as terras fluviais como as Ilhas de Ferro para ornamentar seu sonho. E quando Harrenhal por fim ficou completo, no mesmo dia em que o Rei Harren ali se instalou, Aegon, o Conquistador, desembarcou em Porto Real.

Catelyn lembrava-se de ouvir a Velha Ama contando a história aos filhos em Winterfell. “E o Rei Harren aprendeu que muralhas grossas e torres elevadas pouco servem contra dragões”, e sempre terminava a história dizendo: “Pois os dragões voam”. Harren e toda sua linhagem tinham perecido nos incêndios, que engoliram sua monstruosa fortaleza, e todas as Casas que desde então possuíram Harrenhal tinham sido vítimas de infortúnio. Podia ser forte, mas era um local sombrio e amaldiçoado.

– Não quero que Robb trave uma batalha à sombra dessa fortaleza – Catelyn admitiu. – Mas temos de fazer alguma coisa.

– E logo – concordou seu tio. – Não lhe contei o pior, filha. Os homens que enviei para oeste trouxeram notícias de que uma nova tropa está sendo reunida em Rochedo Casterly.

Outro exército Lannister. A ideia deixou-a doente.

– Robb tem de ser imediatamente informado. Quem a comanda?

– Sor Stafford Lannister, segundo se diz – Sor Brynden virou-se para olhar os rios, com o manto vermelho e azul se agitando com a brisa.

– Outro sobrinho? – os Lannister de Rochedo Casterly eram uma casa odiosamente grande e fértil.

– Um primo – ele corrigiu. – Irmão da falecida esposa de Lorde Tywin, portanto, parente por duas vias. Velho e um pouco estúpido, mas com um filho, Sor Daven, que é mais temível.

– Então, esperemos que seja o pai, e não o filho, quem coloca este exército em campo.

– Ainda dispomos de algum tempo antes que tenhamos de enfrentá-los. Esta leva será de mercenários, cavaleiros livres e rapazes verdes saídos dos lupanares de Lanisporto. Sor Stafford tem de se assegurar de que estejam armados e treinados antes de se arriscar a ir para a batalha… Mas não se iluda, Lorde Tywin não é o Regicida. Ele não se precipitará. Vai esperar pacientemente que Sor Stafford se ponha em marcha antes de sair da proteção das muralhas de Harrenhal.

– A menos que… – Catelyn começou a falar.

– Sim? – Sor Brynden a incitou.

– A menos que tenha de deixar Harrenhal – ela completou. – Para enfrentar outra ameaça qualquer.

O tio a olhou, pensativo:

– Lorde Renly.

Rei Renly – se quisesse pedir ajuda ao homem, Catelyn teria de lhe conceder o tratamento que ele tinha reivindicado para si.

– Talvez – Peixe Negro deu um sorriso perigoso. – Mas ele vai querer alguma coisa.

– Ele vai querer o que os reis querem sempre – ela disse. – Homenagens.

Tyrion

Janos Slynt era filho de um açougueiro e ria como um homem fatiando carne.

– Mais vinho? – Tyrion perguntou.

– Não me oponho – disse Lorde Janos, estendendo a taça. Tinha a constituição de um barril, e uma capacidade semelhante. – Não me oponho mesmo. É um ótimo tinto. Da Árvore?

– De Dorne – Tyrion fez um gesto, e seu criado serviu. Fora os criados, ele e Lorde Janos estavam sozinhos no Salão Pequeno, sentados em volta de uma pequena mesa à luz de vela, rodeados pela escuridão. – Um belo achado. Os vinhos de Dorne não costumam ser tão ricos.

– Rico – repetiu o grande homem com cara de sapo, bebendo um grande gole. Não era homem de bebericar, Janos Slynt. Tyrion tinha notado isso imediatamente. – Sim, rico é a palavra exata que eu estava procurando. A palavra exata. Tem um dom para as palavras, Lorde Tyrion, se me permite dizer. E conta uma história divertida. Divertida, sim.