— Na maioria das vezes — respondeu Mat, com honestidade.
Mesmo quando não a sentia, sua sorte era boa. Se a sentisse, era perfeita. Melindhra deu uma risada, e seu sorriso se abriu como se pensasse que ele estava se gabando. As mulheres pareciam tirar suas conclusões sobre se alguém estava mentindo ou não sem nem analisar as evidências. Em contrapartida, se gostassem desse alguém, ou não davam a mínima para a mentira, ou decidiam que até a mais cabeluda delas era verdade.
As Donzelas podiam ser perigosas, independentemente do clã. Qualquer mulher podia, na verdade, e ele aprendera isso por si mesmo. No entanto, o olhar de Melindhra definitivamente não era neutro.
Mergulhando a mão em seus ganhos, Mat puxou um colar com espirais de ouro, cada uma centrada por uma safira azul-marinho, a maior delas do tamanho da articulação de seu polegar. Lembrava-se da época — era sua própria memória — em que a menor daquelas pedras o teria feito suar.
— Combina com seus olhos — disse ele, depositando o pesado cordão nas mãos dela.
Mat nunca vira uma Donzela usar badulaques de espécie alguma, mas sua experiência dizia que não havia mulher que não gostasse de joias. Estranhamente, elas gostavam de flores quase na mesma medida. Ele não compreendia, mas também precisava admitir que entendia menos de mulheres do que da própria sorte, ou do que acontecera no outro lado daquele batente retorcido.
— Um trabalho muito bonito — opinou Melindhra, erguendo a peça. — Aceito sua oferta. — O colar desapareceu na bolsa da mulher, que se inclinou para afastar o chapéu de Mat para trás. — Seus olhos são bonitos. Como olhos de gato, escuros e límpidos. — Ela girou o corpo para apoiar os pés na borda da fonte e abraçou os joelhos, analisando-o com interesse. — Minhas irmãs-de-lança me falaram de você.
Mat recolocou o chapéu no lugar e observou-a com cautela por baixo da aba. O que elas haviam dito? E por que “oferta”? Era só um colar. O ar convidativo sumira dos olhos de Melindhra. Ela parecia um felino observando um rato. Esse era o problema das Donzelas da Lança. Às vezes, era difícil dizer se queriam dançar, beijar ou matar.
A rua se esvaziava, as sombras escureciam, mas Mat reconheceu Rand esgueirando-se mais adiante, cachimbo enfiado entre os dentes. Era o único homem em Rhuidean que poderia ser visto andando acompanhado de um grupo de Far Dareis Mai. Estão sempre ao redor dele, pensou Mat. Vigiam Rand feito lobas, ávidas para fazer o que ele disser. Alguns homens talvez o invejassem por isso. Mat, não. Na maior parte do tempo, não. Mas, se fosse um bando de garotas como Isendre…
— Com licença um instante — disse ele a Melindhra, apressadamente.
Apoiando a lança de pé contra a borda da fonte, Mat saltou e correu. A cabeça ainda zunia, mas não tanto quanto antes, e ele não vacilou. Não tinha a menor preocupação com seus ganhos. Os Aiel tinham regras bem claras: pilhar durante um ataque era uma coisa, roubar, outra. Os funcionários de Kadere haviam aprendido a manter as mãos nos bolsos quando um deles foi pego roubando. Após um espancamento que deixara o homem com marcas do ombro ao tornozelo, ele fora mandado embora. Mesmo que o tivessem deixado com as roupas, a única bolsa de água que lhe permitiram levar não seria o bastante para que chegasse nem à Muralha do Dragão. Depois do fato, ninguém pegava nem uma moeda de cobre que encontrasse no chão da rua.
— Rand? — O outro homem avançava, cercado por sua escolta. — Rand? — Ele não estava nem a dez passadas de distância, mas continuou andando. Algumas das Donzelas olharam para trás, mas Rand não. Mat sentiu um frio súbito que nada tinha a ver com a noite que caía. Molhou os lábios e, sem gritar, chamou de novo: — Lews Therin. — Rand se virou. Mat quase desejou que não o tivesse feito.
Por um tempo, os dois apenas se encararam sob a luz do crepúsculo. Mat hesitou em se aproximar e tentou dizer a si mesmo que era por causa das Donzelas. Adelin fora uma das mulheres que lhe ensinara um jogo chamado O Beijo da Donzela, que ele dificilmente esqueceria ou voltaria a jogar, caso tivesse a opção. E sentia o olhar de Enaila feito uma broca perfurando seu crânio. Quem imaginaria que uma mulher fosse explodir como combustível no fogo só por alguém lhe dizer que ela era a florzinha mais linda que já se tinha visto?
Rand, então. Mat e ele haviam crescido juntos. Os dois e Perrin, o aprendiz de ferreiro lá de Campo de Emond, tinham caçado e pescado juntos, vagabundeado pelas Colinas de Areia até o limiar das Montanhas da Névoa, e acampado sob as estrelas. Rand era seu amigo. Agora, porém, era o tipo de amigo que poderia estraçalhar sua cabeça sem querer. Por causa de Rand, Perrin talvez estivesse morto.
Mat se obrigou a chegar mais perto. Rand era quase uma cabeça mais alto e, à luz do início da noite, parecia ainda maior. E mais frio.
— Estive pensando, Rand. — Mat desejou que sua voz não tivesse soado rouca. Torceu para que, desta vez, Rand respondesse ao próprio nome. — Faz tempo que estou longe de casa.
— Nós dois estamos — respondeu Rand com suavidade. — Muito tempo. — De repente, ele soltou uma gargalhada, não muito alta, mas quase como a do velho Rand. — Está começando a sentir saudade de ordenhar as vacas do seu pai?
Mat coçou a orelha e sorriu de leve.
— Não exatamente. — Se nunca mais visse o interior de um estábulo, não ficaria triste. — Mas estive pensando que, quando os carroções de Kadere partirem, talvez eu vá junto.
Rand fez silêncio. Quando voltou a falar, o breve lampejo de alegria tinha se extinguido.
— Vai viajar para Tar Valon?
Foi a vez de Mat hesitar. Ele não me entregaria a Moiraine, entregaria?
— Talvez — respondeu Mat, despreocupado. — Não sei. É lá que Moiraine vai me querer. Talvez surja uma oportunidade para eu voltar a Dois Rios. Quero ver se tudo está bem em casa. — Ver se Perrin está vivo. Ver se minhas irmãs, a mãe e o pai estão vivos.
— Todos nós temos que fazer o que é preciso, Mat. Quase nunca o que queremos, e sim o que é preciso.
Para Mat, aquilo soou como uma desculpa, como se Rand estivesse pedindo a compreensão dele. Mat, porém, já fizera algumas vezes o que era preciso. Não posso culpá-lo por Perrin, não sozinho. Nenhum desgraçado me forçou a ir atrás de Rand feito um maldito cãozinho! Mas aquilo também não era verdade. Ele fora forçado, só que não por Rand.
— Você não vai… me impedir de ir?
— Eu não tento lhe dizer para ir ou ficar, Mat — explicou Rand, soando cansado. — É a Roda que tece o Padrão, não eu, e a Roda tece conforme deseja. — Falando exatamente como uma maldita Aes Sedai! Já se virando para ir embora, Rand acrescentou: — Não confie em Kadere, Mat. De certo modo, ele é um dos homens mais perigosos que você já conheceu. Não confie nele nem um pouco, ou pode acabar com a garganta cortada, e você e eu seríamos os únicos a lamentar isso. — Então ele desceu a rua cada vez mais escura, as Donzelas o cercando feito lobos furtivos.
Mat o observou. Confiar no mercador? Eu não confiaria em Kadere nem que ele estivesse amarrado a uma saca. Então Rand não tecia o Padrão? Mas chegava perto! Muito antes de qualquer um deles tomar conhecimento de que as Profecias lhes diziam respeito, souberam que Rand era ta’veren, um dos raros indivíduos que, em vez de serem tecidos ao Padrão por bem ou por mal, forçavam o Padrão a se moldar em torno deles. Mat sabia o que era ser ta’veren. Ele mesmo era um, ainda que não tão forte quanto Rand. Às vezes, Rand era capaz de afetar a vida das pessoas e mudar seu curso só por estar na mesma cidade que elas. Perrin também era ta’veren — ou tinha sido. Moiraine achara significativo encontrar três jovens que haviam crescido na mesma aldeia, todos ta’veren. Pretendia encaixá-los em seus planos, quaisquer que fossem.