Rizzoli abanou a cabeça num gesto de simpatia.
-Eu entendo. Se o incomoda, não venha. Apenas pensei que seria uma maneira fácil de ganhar dois ou três mil dólares. Korontzis arregalou os olhos.
- Dois ou três mil dólares? - Oh, sim. No mínimo. Korontzis lambeu os lábios de novo. -Eu.., eu... Não é perigoso? Tony Rizzoli riu-se.
- Se fosse perigoso, eu não iria jogar, pois não? É canja. 0 Otto sabe dar as cartas de uma forma mecanizada. Consegue dar um baralho de cima, do fundo ou do meio. Há anos que faz isso e nunca foi apanhado.
Korontzis deixou-se ficar ali, a olhar fixamente para Rizzoli. -De quanto... quanto é que eu precisava para entrar no jogo? -Cerca de quinhentos dólares. Mas até lhe digo isto. A coisa é tão fácil que lhe vou emprestar quinhentos dólares.
- Você está a ser muitíssimo generoso, Tony. Porque é que... porque é que está a fazer isso por mim?
-Eu digo-lhe porquê-A voz de Tony encheu-se de indignação. -Quandovejo um homem decente e trabalhadorcomouocê, com uma profissão responsável como a de conservador de um dos maiores museus do mundo, e o estado não lhe dá o valor suficiente para ter um ordenado que se veja, e você anda a lutar para conseguir alimentar a família, bem, para lhe dizer a verdade, Victor, isso dá cabo de mim. Há quanto tempo não é aumentado?
-Não... não há aumentos.
-Está a ver? Ouça. Você tem uma opção, Victor, Pode deixar-me fazer-lhe um pequenofavorhoje à noite, e assim ganharuns milhares de dólares e começar a viver como merece, ou então continua a viver com o que ganha sem pensar no futuro para o resto da vida.
-Não... não sei, Tony, Não devo... Tony Rizzoli levantou-se.
-Eu compreendo. Sou capaz de estar de volta a Atenas dentro de um ou dois anos, e talvez venhamos a encontrar-nos de novo. Foi um prazer conhecê-lo, Victor. - Rizzoli dirigiu-se para a porta. Korontzis tomou a decisão.
-Espere. Eu.., eu gostaria de ir consigo esta noite. Mordera a isca.
-Eh, óptimo - disse Tony Rizzoli. - Sinto-me bem por poder ajudá-lo. Korontzis hesitou.
- Peço desculpa, mas quero ter a certeza de que entendi bem. Você disse que se eu perder os quinhentos dólares não terei que lhos devolver?
-É isso mesmo -disse Rizzoli. -Porque você não pode perder. 0 jogo está viciado.
- Onde é que vai ser a partida?
-Quarto quatrocentos e vinte no Hotel Metrópole. Dez horas. Diga à sua mulher que vai trabalhar até tarde.
sentiu-se repentinamente preocupado. E se alguma coisa corresse mal e ele perdesse quinhentos dólares? Afastou a ideia. 0 seu amigo Tony trataria do caso. E se ele ganhasse. Korontzis sentiu-se repentinamente eufórico. 0 jogo começou. Havia quatro homens no quarto do hotel além de Tony Rizzoli e Victor Korontzis.
-Quero que conheça o meu amigo Otto Dalton-disse Rizzoli. - Victor Korontzis.
Os dois homens apertaram as mãos. Rizzoli olhou para os outros curiosamente.
-Parece-me que não conheço estes cavalheiros. Otto Dalton fez as apresentações.
-Perry Breslauer de Detroit... Marvin Seymour de Houston... Sal Prizzi de Nova Iorque.
Victor Korontzis abanava a cabeça, não confiando na voz.
Otto Dalton aparentava os seus sessenta anos, era magro, tinha cabelo grisalho e era um homem afável. Perry Breslauer era mais novo,mas tinha um rosto enrugada contraído. Marvin Seymour era um homem magro de aspecto brando. Sal Prizzi era um homem enorme, com a estrutura de um carvalho, de membros poderosos como braços. Tinha olhos pequenos e malvados, e uma faca deixara-lhe uma cicatriz profunda. Rizzoli reunira-se com Korontzis antes do jogo. ~Estes tipos têm muito dinheiro. Podem dar-se ao luxo de perder muita massa. 0 Seymour é dono de uma companhia de seguros, o Breslauer concessionário do ramo automóvel por todos os Estados Unidas, e o Sal Prizzi é o chefe de um grande sindicato em Nova Iorque.» Otto Dalton falava.
- Muito bem, cavalheiros. Vamos começar. As fichas brancas valem cinco dólares, as azuis valem dez, as vermelhas valem vinte e cinco e as pretas valem cinquenta. Vamos ver a cor do vosso dinheiro.
Korontzispuxou dos quinhentos dólares que TonyRizzoli lhe emprestara. «Não, pensou, «emprestara, não, dera.N Olhou para Rizzoli e sorriu. 0 Rizzoli é um excelente amigo. Os outros homens tiravam enormes maços de notas. Korontzis Quem escolheu foi Otto, que dava as cartas. As apostas foram pequenas no princípio, e houve vasas de cinco cartas, de sete cartas e outras modalidades. No início, os ganhos e perdas foram distribuídos por partes iguais, mas aos poucos a maré começou a virar. Parecia que Victor Korontzis e Tony Rizzoli não podiam fazer nada de errado. Se as cartas deles eram razoáveis, as dos outros eram piores. Se os outros tinham bom jogo, Korontzis e Rizzoli tinham melhor. Victor Korontzis não queria acreditar na sua sorte. No fim da noite, tinha ganho quase dois mil dólares. Parecia um milagre. -Vocês tiveram muita sorte -resmungou Marvin Seymour. -É verdade-concordou Breslauer. -Que tal darem-nos outra oportunidade amanhã?
-Eu depois digo-vos-disse Rizzoli.
Quando tinham saído, Korontzis exclamou: -Não posso acreditar. Dois mil dólares! Rizzoli riu-se.
-Sãofavas contadas. Eu disse-1he.0 Otto é um dos artíficesmais astutos na matéria. Os tipos estão mortos por levarem outro arrombo amanhã. Está interessado?
-Pode apostar. -Houve um sorriso largo no rosto de Korontzis. -Parece que disse uma piada.
Na noite seguinte, Victor Korontzis ganhou três mil dólares.
- É fantástico! - disse ele a Rizzoli, - Eles não suspeitam de nada?
- Claro que não. Aposto consigo que amanhã vão pedir para aumentar a parada. Julgam que vão recuperar o dinheiro. Quer alinhar?
-Claro, Tony. Alinho.
No momento em que se sentavam para jogar, Sal Prizzi disse: -Sabem uma coisa? Até agora não fizemos outra coisa senão perder. Que tal subirmos as apostas? Tony Rizzoli olhou por cima para Korontzis e piscou o olho. -Por mim tudo bem - disse Rizzoli. -E vocês? Todos abanaram a cabeça em sinal de concordância. Otto Dalton colocou pilhas de fichas.
-As brancas valem cinquenta dólares, as azuis cem, as vermelhas quinhentos, as pretas mil.
Victor Korontzis olhou para Rizzoli inquietantemente. Não pensara que as apostas fossem tão altas. Rizzoli abanou a cabeça de um modo tranquilizador. 0 jogo começou. Nada mudou. Os jogos de Victor Korontzis eram mágicos. Todas as cartas que tinha venciam os outros. Tony Rizzoli também estava a ganhar, mas não tanto.
-Que cartas de merda! -resmungou Prizzi. -Vamos trocar de baralho.
Otto Dalton amavelmente apresentou um baralho novo. Korontzis olhou por cima para Tony Rizzoli e sorriu. Ele sabia que nada ia fazer mudar a sorte deles. À meia-noite mandaram buscar sanduíches. Os jogadores fizeram um intervalo de quinze minutos. Tony Rizzoli levou Korontzis para um canto.
-Eu disse ao Otto que os deixasse partilhar um pouco-sussurrou ele.
-Não percebo.
- Vamos deixá-los vencer alguns jogos. Se estiverem sempre a perder, podem desanimar e desistir.
- Oh, compreendo. É bem pensado.
-Quando pensarem que estão muito hábeis, nós subimos a parada outra vez e damos cabo deles.
Victor Korontzis estava hesitante.
-Eu já ganhei tanto dinheiro, Tony. Não acha que seria melhor sairmos enquanto estamos...?
Tony Rizzoli olhou-o de frente e disse:
-Victor, você não gostaria de sair daqui esta noite com cinquenta mil dólares no bolso?
Quando o jogo recomeçou, Breslauer, Prizzi e Seymour começaram a ganhar. As cartas de Korontzis ainda eram boas, mas as dos outros eram melhores. «0 OttoDalton éum génio, pensou Korontzis. Esteve a observá-lo enquanto dava e não conseguira detectar um movimento falso. Amedida que o jogo prosseguia, VictorKorontzis iaperdendo. Não estavapreocupado. Em poucos minutos, quando tivessem-qual era a palavra?-partilhado com os outros, ele, Rizzoli e Dalton procederiam ao golpe final. Sal Prizzi regozijava-se com a desgraça alheia. -Bem - disse ele -, parece que vocês arrefeceram. Tony Rizzoli sacudiu a cabeça pesarosamente.