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"Vem aí a guerra."A vida de Diogo Meireles mudou no dia em que viu a mãe colada ao jornal com uma expressão de angústia. Tinha dez anos e sempre a conhecera como uma pessoa segura de si, alegre e despreocupada. Mas naquela manhã a mãe pareceu-lhe transtornada, a face lívida e as mãos literalmente agarradas à cabeça.

"Ai meu Deus, meu Deus!", exclamava ela repetidamente enquanto lia e relia a segunda página do matutino. "Que vai ser de nós, meu Deus? Que vai ser de nós?"

Tamanha consternação, por ser coisa nunca vista naquela casa, deixou-o assustado.

"O que foi, mãe?", atreveu-se a perguntar.

"Não é nada, Diogo", retorquiu ela sem sequer levantar o olhar. "Vai brincar com os teus irmãos."

O rapaz afastou-se, sem saber o que pensar. Brincar com os irmãos? O que queria ela dizer com isso? Então não sabia que o Manei e a Mimi tinham ido com o pai para o quartel? O que queria ela que ele fizesse? Que brincasse com o puto Jorge ou com a Gracinha, que ainda estava no berço?

Mas que disparate vinha a ser aquele? Para não contrariar a mãe, porém, Diogo optou por se fechar no quarto e esperar que ela se acalmasse.

Se calhar a mãe lera mais um episódio de Fazenda Abandonada, o romance de Ventura Reis que seguia religiosamente no jornal. Só que, ocorreu-lhe logo a seguir, era sexta-feira e o romance só aparecia nos suplementos de domingo. Portanto, os dramas narrados pelo folhetim não podiam ser responsáveis por toda aquela comoção. Então o que seria? A verdade é que não dispunha de pistas, pelo que se resignou à sua ignorância. Estendeu-se na cama e pegou num exemplar da revista Zorro, que folheou para espreitar as mesmas histórias pela enésima vez.

Dez minutos depois sentiu a mãe atravessar o corredor e descer as escadas à pressa. Assomou à janela e viu-a bater à porta da vizinha e envolverem-se as duas numa conversa muito animada.

Depois a vizinha fez-lhe sinal de que entrasse e ambas desapareceram dentro da casa. Era tudo muito estranho, concluiu, decidido a tirar o caso a limpo. Esgueirou-se para a salinha e deparou com o jornal caído no chão, amarfanhado aos pés da poltrona como um trapo desamparado; tratava-se de um exemplar de A Província de Angola, presença diária naquela casa.

Pegou no matutino e estudou-lhe a primeira página sem detectar nada de especial. Virou para a segunda e, quase sem querer, fixou a atenção no que lhe interessava, a caixa dos filmes exibidos no cinema. O Cine Tropical anunciava Maldosamente Ingénua, com Sandra Dee e James Darren, que garantia ser "a história apaixonante de uma rapariga que pela primeira vez encontra o amor!"

Tretas de meninas, pensou com um trejeito de desdém. Já o Cinema Colonial prometia O Regresso de Robin dos Bosques para as 15.30 do dia seguinte, sábado, coisa que logo lhe despertou a curiosidade. Robin dos Bosques? Era fita a não perder!

Desviou os olhos para a esquerda da página e reparou que havia umas linhas sublinhadas a lápis, presumivelmente pela mãe. A notícia intitulava-se "Novas manifestações da criminosa actividade de agitadores externos contra a ordem pública e segurança das populações", mas a sua curiosidade concentrou-se nas linhas sublinhadas, assim destacadas porque decerto haviam sido as causadoras da perturbação que testemunhara minutos antes.

"Gru... pos de nati...vos capi... ta... niados ou ins... truídos por ele... mentos vin... dos do exte...

rior ", murmurou titubeante, "ata... caram pos... tos fron... tei... riços da'Guar... da Fis... cal e da Po...

lí... cia."

Pousou o jornal no regaço e desviou os olhos para a janela. Não percebera nada. "Nativos capitaniados?" Que diabo quereria isso dizer? O que havia ali de tão extraordinário que pudesse suscitar tamanha consternação na mãe? Não sabia bem o que pensar, a não ser que tudo aquilo tinha um certo perfume às aventuras de Tarzan.

Sentiu a porta de casa abrir-se e percebeu que ela regressava. Deixou o jornal onde o encontrara e dirigiu-se apressadamente para o quarto, onde se agarrou de novo ao Zorro. Depois sentiu a mãe pegar no telefone e ficou atento.

"Está lá?... O capitão Meireles, pode chamá-lo?... Diga-lhe que é a mulher... Sim, é urgente... Ai não?... Hmm, está bem. Obrigada."

E desligou.

A ansiedade da mãe era contagiante; dava a Diogo a impressão que ela não parava quieta.

Circulava com grande agitação pela casa e chegou até a enervar-se com a Gracinha, gritando com a bebé por ter sujado as fraldas. Essa reacção encheu-o de espanto. Tanto nervosismo e irritação nem pareciam coisa da mãe, ela que era sempre tão doce e tranquila.

Sentindo necessidade da presença tranquilizadora do pai, Diogo pousou o Zorro sobre a mesinha-de-cabeceira e foi para a janela espreitar a rua na expectativa de o ver chegar. Viviam no primeiro andar de uma vivenda do bairro militar, no Alto da Maianga; a mancha azul do mar estendia-se lá ao fundo, plácida e apaziguadora. Sentiu-se acalmar. Lembrou-se que o quartel onde o pai prestava serviço militar se situava ali bem perto e naquele instante as ruas pareceram-lhe tranquilas.

Voltou para a cama e pegou mais uma vez no Zorro, convencido de que já se conseguiria concentrar na aventura de Blake e Mortimer no Egipto. Depressa verificou que a tensão da mãe o havia contagiado e, ao contrário do que era habitual, nem conseguiu achar graça à história.

Não passara meia hora quando sentiu o pai escalar as escadas de dois em dois degraus e irromper energicamente pela casa, como aliás era seu timbre.

"Lourdes! Lourdes!"

A mãe saiu à pressa da cozinha.

"Ó Quim, finalmente!"

"Não saíste de casa, pois não?"

"Claro que não. Quando li o jornal fui falar com a dona Olga e depois liguei para o quartel a saber de ti. Disseram-me que não podias atender. Tenho andado tão incomodada!..."

As vozes aproximaram-se e Diogo percebeu que ambos passavam pelo corredor. Logo a seguir viu os irmãos, que tinham entrado atrás do pai, invadirem-lhe o quarto; Manei e Mimi vinham silenciosos e com cara de caso, igualmente atentos à conversa que se transferira para a sala de estar, e sentaram-se à escuta.

"Ninguém pode sair de casa." Era a voz do pai. "Estamos a organizar patrulhas para proteger o bairro."

"Mas o que aconteceu, valha-me Deus? No jornal vem a notícia de que os pretos estão a atacar casas comerciais e fazendas na fronteira e que há oito feridos. A dona Olga diz que parece que houve mais vítimas, mas não se percebe muito bem."

O marido suspirou.

"É infelizmente pior do que isso", murmurou, baixando a voz. As crianças viram-se forçadas a suster a respiração e a aguçar os ouvidos para continuarem a acompanhar a conversa.

"Os pretos pegaram em catanas e desataram a matar toda a malta nas fazendas. Homens, mulheres, crianças... tudo o que é branco é para matar."

"Meu Deus! Isso está a acontecer na fronteira? Achas que pode chegar aqui a Luanda?"

"Tudo é possível. Houve matanças de brancos aqui perto."

Fez-se um breve silêncio na sala de estar.

, *

"O que queres dizer com isso? O jornal diz que a confusão aconteceu em postos fronteiriços."

Ouviu-se o som de páginas a serem voltadas. "Está aqui no jornal, ora vê!..."

"Eu sei muito bem o que diz o jornal", atalhou ele. "Houve de facto chatice lá em cima em Cuimba, mas parece que também sucederam coisas por aqui."

"Por aqui, onde?"