"Em Quicabo e em Nambuangongo, por exemplo. Também em Quimbumbe e em Zala."
"Onde é isso?"
"E aqui, no distrito de Luanda."
Ao ouvir o nome da cidade, Lourdes quase entrou em pânico.
"O quê? Em Luanda? Andam a matar brancos em Luanda?"
"Não, mulher, tem calma! Não foi na cidade. A coisa está a passar-se nas fazendas."
Fez-se um novo silêncio e Diogo trocou um olhar horrorizado com os irmãos. Nas férias toda a família ia passar uns tempos a uma das fazendas da região, propriedade dos amigos de um camarada do pai lá do quartel. Lembrava-se de ter estado uma semana numa fazenda com plantação de café e duas semanas numa outra onde se produzia gado; vira até os bois e as vacas serem marcados a ferro, como nos filmes de cobóis do John Wayne nas matinês do Cine Restauração. E agora o pai dizia que os pretos andavam nessas fazendas a matar os brancos?
A voz da mãe voltou num fio, mais temerosa do que nunca.
"Achas que se vai repetir aqui em Luanda o que aconteceu no mês passado?"
"Não sei", respondeu o pai. "É possível."
A referência foi instantaneamente entendida por todos. Diogo lembrava-se muito bem que semanas antes haviam ocorrido incidentes em plena cidade. Na altura fora uma grande agitação.
Os pais diziam que os pretos andavam a atacar a polícia e toda a gente sentiu um medo muito grande. Correu então que a polícia dera uma grande lição aos bandidos e a coisa acalmara. Mas e se eles começassem a atacar todos os brancos? O pai acabara de revelar que tinham morto crianças.
Ora, e apesar das veleidades que o enchiam depois de ver uma coboiada no Restauração, Diogo considerava-se a si mesmo uma criança, totalmente dependente dos adultos. Quereria isto dizer que o matariam a ele? Estaria ele em perigo? E os irmãos? E os próprios pais? O tom da conversa que do quarto escutava em silêncio parecia-lhe augurar o pior.
"Então que vamos fazer, Quim?"
"Para já, ninguém sai de casa. Aqui o nosso bairro vai ser patrulhado a partir de agora. Mas a situação é muito delicada. A cidade tem cinquenta mil brancos e está rodeada de duzentos mil pretos. Se houver um levantamento geral dos indígenas, acho que não temos meios de nos defender."
"E o exército?"
"Qual exército, Lourdes? Tu sabes quantos soldados brancos existem em toda a província de Angola? Sabes quantos?"
"Sei lá. Alguns, acho eu."
"Mil e quinhentos."
"E não chega?"
O pai soltou uma gargalhada sem humor.
"Mil e quinhentos homens? Isso é o mesmo que nada, mulher! São apenas três regimentos em toda a colónia. E sabes quantos há aqui em Luanda? Só um. Um único regimento para toda a cidade e distrito!"
"Meu Deus! O que faremos se isto der para o torto?"Diogo ouviu o pai respirar fundo antes de responder; claramente, o assunto já havia sido discutido no regimento.
"Vamos todos para o quartel."
Apesar de não ter nascido em Angola, as mais antigas memórias de Diogo Meireles eram as brincadeiras dominicais nos baloiços do Parque Heróis de Chaves, as matinês infantis do Cine Restauração e as manhãs de banho na praia.
A família havia chegado a Luanda em 1957, altura em que o pai, o capitão miliciano Joaquim Meireles, iniciara uma comissão de serviço de quatro anos no Grupo Misto de Artilharia. Até àquela altura a cidade tinha vivido ao ritmo pacato de uma terriola de província, com um estilo de vida aprazível e descontraído, as grandes avenidas soalheiras e as palmeiras à beira-mar a conferirem-lhe um atraente toque exótico. Quando não estava no Colégio Goretti, Diogo ia para o quartel estudar matemática com o pai ou então ficava em casa com o resto da família. A mãe, Lourdes, tornara-se Meireles por casamento, mas o seu apelido original era Branco, o nome da família em Penafiel.
Diogo cresceu magro e calado, alto para a idade e anormalmente ágil. Os seus passatempos predilectos deslizavam pelas páginas do Zorro e sobretudo pelo soalho de casa. De giz na mão, desenhava pistas no chão do quarto para as fabulosas corridas das suas miniaturas da Matchbox, paixão que por contágio lhe despertou o interesse pelo que se passava anualmente no asfalto do Grande Prémio de Luanda. O moço tornara-se um amante das provas de automóveis que animavam o Circuito da Fortaleza, espectáculo repleto de barulho, cores garridas e fumaça a cheirar a óleo que o fazia palpitar de emoção como nenhum outro; ainda no ano anterior vibrara com a vitória do rodesiano John Love no seu espectacular Jaguar, embora na altura tivesse torcido sobretudo pelo Maserati de Álvaro Lopes, o ás angolano que cortou a meta num honroso quarto lugar.
Embora não o pudesse saber ainda, esses tempos tinham acabado. Desde que a mãe lera a notícia no jornal e o pai chegara a casa com as novidades que agitavam o quartel e toda a província, o ambiente em casa e pela cidade mudara radicalmente.
"E a Metrópole?", foi a primeira pergunta que Lourdes fez ao marido quando o viu chegar a casa dois dias mais tarde. "O que dizem da Metrópole?"
"Nem uma palavra", respondeu ele sombriamente. "Não querem saber de nós para nada."
"Mas já chegaram tropas..."
"Sim, uma companhia de paraquedistas. E vêm a caminho quatro companhias de caçadores."
A mulher ergueu os olhos aliviados, como se fizesse uma prece a agradecer aos Céus.
"Ufa! Sempre é alguma coisa."
"Pois, mas o Salazar não diz nada sobre o que se passa por aqui", resmungou o capitão Meireles.
"Nada de nada. é o silêncio absoluto. Fingem que está tudo normal."
O tema enchia todas as conversas em casa, no quartel ou por Luanda inteira. Havia pretos a matar brancos em Angola e a Metrópole nada dizia. Como era possível? A indignação generalizava-se, a par do medo. Estariam os brancos de Angola abandonados por Lisboa e entregues à sua sorte? Sentindo a fragilidade da polícia e do exército, os homens contavam armas e combinavam tácticas e modos de actuação em caso de necessidade extrema, enquanto as mulheres se fechavam em casa com as crianças.
Diogo e os irmãos iam acompanhando as novidades de cada vez que o pai chegava do quartel.
A informação ia toda dar ao centro de comando militar e o regresso a casa do capitão Meireles era um autêntico momento de noticiário.
"Estamos a organizar a evacuação das fazendas mais isoladas", contou ele ao jantar numa das noites seguintes. "Partiram hoje colunas e aviões para o Norte."
"Aleluia! Já estava na altura de fazerem alguma coisa!"
"Mas não é possível levar auxílio a todo o lado. Os Dembos estão a dar cabo de nós. Estivemos a ver no mapa e não há para lá estradas nem pistas de aterragem. Não sei como vamos lá chegar."
"Ah, coitados!", exclamou a mãe. "Então como se vai ajudar aquela gente?"
"Precisamos de tempo."
Lourdes pôs-se a despejar sopa fumegante nos pratos; era abóbora. Começou no marido e seguiu para os filhos.
"A dona Olga anda uma pilha de nervos", observou ela. "Está transtornada e diz aos quatro ventos que nos vai suceder o mesmo que aconteceu ao Congo Belga. Achas possível?"
"Não sei."
A resposta claramente não agradou à mulher. Lourdes olhou de relance para os filhos, consciente de que havia coisas que não podia dizer diante das crianças, mas não conseguia conter a preocupação.
"Quim", disse ela entre dentes, improvisando uma observação críptica. "No Congo Belga eles andaram a... enfim, com catanas a... tu sabes, não é? Achas que vão fazer o mesmo aqui?"
O pai meteu a colher à boca, engolindo ruidosamente o pedaço de sopa, enquanto matutava na pergunta.