Выбрать главу

— Luz! — murmurou Min, olhando incomodada para a escuridão que se adensava ao redor. — Nós nem conseguimos ver? Pela Luz!

— Então nada mudou — disse Perrin, sombrio. — Nada mesmo. Não podemos descer até a planície, e o Tenebroso quer nos ver mortos.

— Tudo muda — disse Moiraine, muito calma —, e o Padrão absorve tudo. Devemos seguir o Padrão, não as mudanças momentâneas. — Ela encarou um de cada vez e prosseguiu: — Uno, tem certeza de que seus batedores não deixaram passar nada de suspeito? Nem algo pequeno?

— O Renascimento do Lorde Dragão afrouxou os nós da certeza, Moiraine Sedai, e jamais há certezas quando se luta contra Myrddraal, mas aposto minha própria vida que os batedores fizeram um trabalho tão bom quanto o de qualquer Guardião. — Era um dos discursos mais longos que Perrin já havia escutado Uno fazer sem dizer um palavrão. O esforço deixara a testa do homem toda suada.

— Todos podemos errar — disse Moiraine. — O que Rand fez pode muito bem ter sido um chamariz para qualquer Myrddraal em um raio de dez milhas.

— Talvez… — começou Min, hesitante. — Talvez você devesse erguer uma proteção para mantê-los afastados. — Lan lançou a ela um olhar severo. Muitas vezes, ele próprio questionava as decisões de Moiraine, ainda que raramente se deixasse ser ouvido. No entanto, não aprovava que outros fizessem o mesmo. Min retribuiu a cara feia. — Bem, Myrddraal e Trollocs são bem ruins, mas pelo menos podemos vê-los. Não gosto da ideia de que um desses… Sem-alma… chegue sorrateiro e me degole sem que eu perceba.

— A proteção que ergui antes nos esconderá tanto dos Sem-alma quanto de outras criaturas da sombra — explicou Moiraine. — Em geral, quando alguém está fraco como estamos agora, a melhor opção é se esconder. Se houver um Meio-homem perto o suficiente para… Bem, colocar uma proteção que mate quem tentar invadir o acampamento está além das minhas capacidades. E, mesmo que eu pudesse fazê-lo, uma proteção dessas acabaria apenas nos prendendo aqui. Como não é possível erguer dois tipos de proteção de uma só vez, deixarei os batedores, os guardas e Lan a postos para nos defenderem e usarei o único tipo de proteção que pode ser mais útil.

— Posso verificar o entorno do acampamento — ofereceu-se Lan. — Se os batedores tiverem deixado passar alguma coisa lá fora, eu encontrarei. — Ele não estava se gabando, apenas constatando um fato. Uno até assentiu, concordando.

Moiraine negou com a cabeça.

— Se precisarmos de você esta noite, meu Gaidin, será aqui. — Ela ergueu o olhar em direção às montanhas escuras ao redor. — Há algo estranho no ar.

— Algo prestes a acontecer. — As palavras saíram da boca de Perrin antes que ele pudesse se conter. Moiraine olhou para ele, para dentro dele, o que o fez se arrepender de ter falado.

— Sim — concordou ela. — Prestes a acontecer. Faça com que seus guardas fiquem especialmente alerta hoje à noite, Uno. — Não havia necessidade de sugerir que os homens dormissem com as armas à mão, aquele já era um hábito dos shienaranos. — Durmam bem — acrescentou, dirigindo-se a todos, como se naquele momento houvesse alguma chance de aquilo acontecer. Depois partiu de volta para a cabana. Lan ainda ficou ali por tempo o bastante para encher três pratos de cozido e depois correu atrás dela, sendo rapidamente tragado pela noite.

Os olhos dourados de Perrin brilhavam ao seguir o Guardião escuridão adentro.

— Durmam bem — murmurou. O cheiro de carne cozida de repente o deixou enjoado. — Uno, o terceiro turno é meu? — O shienarano assentiu. — Então vou tentar seguir o conselho dela. — Outros homens aproximavam-se do fogo, e o burburinho o acompanhou até a encosta.

Ele tinha uma cabana só para si, uma pequena construção de troncos onde quase não cabia de pé, as fendas repletas de lama seca. Uma cama dura, cujo colchão era apenas uma camada de ramos de pinheiro escondida sob um cobertor, ocupava quase metade do espaço. A pessoa que tirou as selas de Galope também escorou o arco de Perrin bem atrás da porta. Ele pendurou o cinturão em um pino, ainda com o machado e a aljava, depois se despiu até ficar apenas com as roupas de baixo, tremendo. As noites ainda eram geladas, mas pelo menos o frio o impedia de dormir profundamente. Com o sono profundo vinham sonhos dos quais não podia se livrar.

Durante um tempo, Perrin ficou deitado olhando para o teto de troncos, com apenas um cobertor no corpo, tremendo. Então o sono veio, e, com ele, os sonhos.

4

Sombras Adormecidas

Estava frio no salão da estalagem, apesar do fogo que ardia na comprida lareira de pedra. Perrin esfregou as mãos diante das chamas, mas não conseguiu se aquecer. O frio proporcionava um estranho conforto, entretanto, como se fosse um escudo. Contra o quê, ele não conseguia imaginar. Um murmúrio ressoou no fundo de sua mente, um som indistinto que ele quase não ouvia, como se algo arranhasse a porta de leve, pedindo para entrar.

— Você vai desistir, então. É o melhor a fazer. Venha. Sente-se, vamos conversar.

Perrin virou-se para ver quem falava com ele. As mesas redondas espalhadas pelo salão estavam vazias, a não ser por um homem solitário sentado a um canto, na penumbra. O restante do recinto parecia um tanto obscuro, como se fosse produto da imaginação, e não um lugar real. Percebia isso sobretudo nos pontos que não encarava diretamente. Ele voltou a olhar para o fogo, que agora ardia em uma lareira de tijolos. Por algum motivo, nada daquilo o incomodava. Deveria, mas ele não conseguia explicar por quê.

O homem acenou, e Perrin se aproximou da mesa. Uma mesa quadrada. As mesas eram quadradas. Com a testa franzida, estendeu a mão para tocar o tampo, mas afastou-a. Não havia iluminação naquele canto do salão, e, apesar da luz em todo o resto, o homem e a mesa permaneciam quase escondidos, quase parte da penumbra.

Perrin teve a sensação de conhecer o homem, mas era tão vaga quanto o que via com o canto do olho. Era um sujeito bonito de meia-idade, vestido bem demais para uma estalagem no interior. Usava trajes de veludo escuro, quase preto, com babados de renda branca para fora do colarinho e dos punhos. O homem estava sentado ereto, e às vezes pressionava a mão no peito, como se sentisse dor ao se mexer. Tinha os olhos negros cravados no rosto de Perrin, dois pontos cintilando nas sombras.

— Desistir de quê? — perguntou Perrin.

— Disso, é claro. — O homem inclinou a cabeça para o machado na cintura de Perrin. Parecia surpreso, como se fosse um assunto sobre o qual os dois já tivessem conversado, uma discussão antiga que recomeçava.

Perrin não tinha percebido que o machado estava ali, não sentira seu peso no cinturão. Ele passou a mão pela lâmina em meia-lua e pelo cabo grosso que mantinha o equilíbrio ideal. O aço parecia… sólido. Mais sólido que tudo ao redor. Talvez até mais sólido que ele próprio. Deixou a mão parada ali, querendo se agarrar a algo real.

— Pensei no assunto — respondeu —, mas acho que não consigo. Ainda não. — Ainda não? A estalagem parecia tremeluzir, e o murmúrio começou a ressoar outra vez em sua mente. Não! O ruído morreu.

— Não? — O homem abriu um sorriso frio. — Você é um ferreiro, garoto. E dos bons, pelo que ouvi dizer. Suas mãos foram feitas para segurar um martelo, não um machado. Foram feitas para construir, não para destruir. Volte a ser o que era, antes que seja tarde demais.

Perrin percebeu que assentia.

— Sim. Mas sou ta’veren. — Era a primeira vez que dizia aquilo em voz alta. Mas ele já sabe. Tinha certeza daquilo, embora não soubesse explicar por quê.

Por um instante, o rosto do homem se contorceu em uma careta, mas logo ele voltou mais forte que antes. Uma força fria.