— E como você espera controlar Vilavelha?
— Bastará saqueá-la. A riqueza da Alta torre…
— O que deseja é ouro?
— O que desejo é sangue.
— Lorde Tywin nos entregará a cabeça da Montanha.
— E quem nos entregará a cabeça de Lorde Tywin? A Montanha sempre foi o seu animal de estimação.
O príncipe fez um gesto na direção das lagoas.
— Obara, olhe para as crianças, se te agradar.
— Não me agrada. Obteria mais prazer em enfiar minha lança na barriga do Lorde Tywin. Vou fazê-lo cantar “As Chuvas de Castamere” enquanto lhe tiro as tripas e procuro por ouro.
— Olha. — Repetiu o príncipe. — Ordeno-te.
Algumas das crianças mais velhas jaziam de barriga para baixo no mármore liso e rosado, bronzeando-se ao sol. Outras nadavam no mar mais adiante. Três estavam construindo um castelo de areia com um grande espigão que se assemelhava à Torre da Lança do Palácio Antigo. Vinte ou mais se reuniram na lagoa grande para ver as batalhas em que as crianças menores lutavam montadas nos ombros das maiores, tentando empurrar umas às outras na água. Sempre que um par caía, o chapinhar era seguido por uma revoada de gargalhadas. Eles assistiram a uma menina morena como uma noz puxar um rapaz muito louro dos ombros de seu irmão e cair de cabeça na lagoa.
— O seu pai jogou esse mesmo jogo uma vez, tal como eu fiz antes dele. — Disse o príncipe. — Tínhamos dez anos de diferença, portanto eu já tinha deixado as lagoas quando ele era velho suficiente para jogar, mas costumava observá-lo quando vinha visitar nossa mãe. Ele era tão feroz, mesmo quando rapaz… Rápido como uma cobra d’água. Muitas vezes o vi derrubar rapazes muito maiores do que ele. Lembrou-me disso no dia em que partiu para Porto Real. Jurou que faria isso mais uma vez, caso contrário nunca o teria deixado ir.
— Deixado ir? — Obara soltou uma gargalhada. — Como se você pudesse impedi-lo. A Víbora Vermelha de Dorne ia onde bem entendia.
— Ele ia. Eu gostaria de ter alguma palavra de conforto para…
— Não vim visitá-lo em busca de conforto. — A voz dela estava cheia de escárnio. — No dia em que o meu pai veio me reclamar como filha, a minha mãe não quis que eu partisse. “Ela é uma menina”, ela disse, “e eu não acho que ela seja sua. Tive outros mil homens.” Ele jogou sua lança aos meus pés e deu com as costas da mão na cara da minha mãe, a fazendo chorar. “Menina ou rapaz, nós travamos as nossas batalhas”, ele disse, “mas os deuses nos deixam escolher nossas armas”. Ele apontou para a lança, e depois para as lágrimas da minha mãe, e eu peguei a lança. “Eu te disse que ela era minha”, disse o meu pai, e me levou com ele. Minha mãe bebeu até a morte dentro de um ano. Dizem que ela estava chorando quando morreu. — Obara aproximou-se da cadeira do príncipe. — Deixe-me usar a lança; não lhe peço mais nada.
— É muito o que me pede, Obara. Pensarei sobre o assunto.
— Você já pensou demais.
— Talvez tenha razão. Mandarei uma mensagem para Lançassolar.
— Desde que a mensagem seja a guerra. — Obara girou sobre os calcanhares e caminhou para fora de modo tão irritado como quando chegou, dirigindo-se aos estábulos em busca de um cavalo descansado e outro galope impetuoso estrada fora.
O Meistre Caleotte deixou-se ficar para trás.
— Meu príncipe? — Perguntou o homenzinho redondo. — Não te doem as pernas?
O príncipe sorriu levemente.
— O sol é quente?
— Devo buscar algo para a dor?
— Não. Preciso de minha cabeça limpa.
O meistre hesitou.
— Meu príncipe, será… será prudente permitir que a Senhora Obara retorne a Lançassolar? Ela irá certamente inflamar o povo. Eles também amavam muito seu irmão.
— Assim como todos nós. — Ele comprimiu as têmporas com os dedos. — Não. Você tem razão. Tenho que voltar a Lançassolar também.
O homenzinho redondo hesitou.
— Será isso sensato?
— Não é sensato, mas é necessário. Melhor enviar um mensageiro a Ricasso e lhe ordenar que abra os meus aposentos na Torre do Sol. Informe minha filha Arianne de que estarei lá amanhã.
A minha pequena princesa. O capitão sentia amargamente a sua falta.
— Você será visto. — Advertiu o meistre.
O capitão compreendeu. Dois anos antes, quando trocaram Lançassolar pela paz e isolamento dos Jardins de Água, a gota do Príncipe Doran não estava nem de perto tão ruim. Naqueles dias ele ainda caminhava, embora lentamente, apoiando-se numa bengala e fazendo caretas a cada passo. O príncipe não desejava que os seus inimigos soubessem como ele tinha se tornado fraco, e o Palácio Antigo e a sua cidade sombria estavam cheios de olhos. Olhos, pensou o capitão, e degraus que ele não podia subir.
Ele precisaria voar para chegar ao topo da Torre do Sol.
— Eu devo ser visto. Alguém precisa despejar óleo na água. Dorne tem de ser lembrada de que ainda tem um príncipe. — Ele sorriu com ar triste. — Por mais velho e gotoso que ele seja.
— Se regressar a Lançassolar, terá de conceder audiência à Princesa Myrcella. — Disse Caleotte. — O seu cavaleiro branco estará com ela… e sabe que ele envia cartas à rainha.
— Suponho que sim.
O cavaleiro branco. O capitão franziu o cenho. Sor Arys tinha chegado a Dorne para servir a sua princesa, como Areo Hotah um dia também chegou com a sua. Mesmo seus nomes soavam estranhamente parecidos: Areo e Arys. Mas as semelhanças terminavam aí. O capitão tinha deixado Norvos e os seus sacerdotes barbudos, mas Sor Arys Oakheart ainda servia o Trono de Ferro. Hotah sentia uma certa tristeza sempre que via o homem com o longo manto branco como a neve nas vezes que o príncipe o enviou a Lançassolar. Um dia, ele pressentia, os dois lutariam; nesse dia Oakheart morreria, com o machado de cabo longo do capitão rachando seu crânio. Ele deslizou sua mão ao longo do liso cabo de freixo do machado e se perguntou se esse dia estava se aproximando.
— A tarde quase já chegou ao fim. — O príncipe estava dizendo. — Esperaremos pela manhã. Assegure-se de que a minha liteira esteja pronta à primeira luz da aurora.
— Às suas ordens. — Caleotte executou uma reverência. O capitão afastou-se para deixá-lo passar e ouviu seus passos desaparecerem.
— Capitão? — A voz do príncipe era suave.
Hotah deu um passo à frente, uma mão fechada sobre o machado. O cabo parecia tão suave quanto a pele de uma mulher contra a sua palma.
Quando chegou à cadeira de rodas, bateu fortemente com a base no chão para anunciar sua presença, mas o príncipe só tinha olhos para as crianças.
— Você tinha irmãos, capitão? — Perguntou. — Lá em Norvos, quando você era jovem? Irmãs?
— Ambos. — Disse Hotah. — Dois irmãos, três irmãs. Eu era o caçula. — O caçula e não desejado. Outra boca para alimentar, um rapaz grande que comia demais e cuja roupa deixava rapidamente de servir.
Não era de se admirar que eles o tivessem vendido aos sacerdotes barbudos.
— Eu era o mais velho. — Disse o príncipe. — E ainda assim, eu sou o último. Depois de Mors e Olyvar terem morrido em seus berços, perdi a esperança de chegar a ter irmãos. Tinha nove anos quando Elia chegou e eu era um escudeiro a serviço na Costa do Sal. Quando o corvo chegou com a notícia de que a minha mãe tinha entrado em trabalho de parto um mês antes do tempo, eu já tinha idade suficiente para saber que o bebê não sobreviveria. Mesmo quando o Lorde Gargalen me disse que eu tinha uma irmã, garanti-lhe que ela deveria morrer em breve. No entanto, ela sobreviveu, graças à misericórdia da Mãe. E um ano depois Oberyn chegou, berrando e chutando. Eu era um homem feito na época em que eles brincavam nestas lagoas. Mas aqui estou, e eles se foram.
Areo Hotah não sabia o que responder a isso. Ele era apenas o capitão dos guardas, e ainda se mantinha um estranho àquela terra e ao seu deus de sete faces mesmo após todos esses anos. Servir. Obedecer. Proteger.