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Prestou aqueles votos aos dezesseis anos, no dia em que se casou com seu machado. Votos simples para homens simples, os sacerdotes barbudos tinham lhe dito. Não foi treinado para consolar príncipes de luto.

Ele ainda tateava em busca de algumas palavras para dizer quando outra laranja caiu com um pesado som úmido, a não mais de meio metro de onde o príncipe estava sentado. Doran estremeceu ao som, como se de alguma forma ele o tivesse magoado.

— Basta. — Ele suspirou. — É o suficiente. Vá embora, Areo.

Deixe-me observar as crianças por mais algumas horas.

Quando o sol se pôs, o ar esfriou e as crianças foram para dentro em busca do jantar, o príncipe ainda permaneceu sob as suas laranjeiras, olhando as lagoas paradas e o mar que se estendia mais além. Um criado trouxe-lhe uma tigela de azeitonas roxas, pão folha, queijo e pasta de grão-de-bico. Ele comeu um pouco e bebeu um cálice do doce e pesado vinho-forte que adorava. Quando este se esvaziou, voltou a enchê-lo. Ás vezes, nas horas profundas e negras da madrugada, o sono vinha encontrá-lo em sua cadeira.

Só então o capitão o empurrava ao longo da galeria iluminada pelo luar, passando por uma fileira de pilares canelados e através de uma graciosa arcada até uma grande cama com frescos lençóis de linho num aposento com vista para o mar. Doran gemeu quando o capitão o deslocou, mas os deuses mostraram-se bondosos e ele não acordou.

A cela onde o capitão dormia era adjacente ao quarto do seu príncipe. Ele sentou-se na cama estreita, tirou a pedra de amolar e o oleado do seu nicho e começou a trabalhar. Mantém o machado afiado, tinham-lhe dito os sacerdotes barbudos no dia em que o marcaram. Ele sempre manteve.

Enquanto amolava o machado Hotah pensou em Norvos, na cidade no alto da colina e na pequena perto do rio. Ainda recordava o som dos três sinos, o modo como os profundos repiques de Noom o faziam estremecer até os ossos, a voz forte e orgulhosa de Narrah, o riso doce e prateado de Nyel.

O sabor do bolo de inverno voltou a encher sua boca, rico em gengibre, pinhões e pedacinhos de cereja, com nahsa para empurrá-lo para baixo, o leite de cabra fermentado servido numa caneca de ferro e temperado com mel. Viu sua mãe em seu vestido com gola de esquilo, aquele que não usava mais do que uma vez por ano, quando iam ver a dança dos ursos ao longo da Escadinha dos Pecadores. E ele sentiu o fedor de pelos queimados de quando o sacerdote barbudo lhe tocara o centro do peito com o ferrete. A dor foi tão violenta que ele pensou que o seu coração pararia, mas ainda assim Areo Hotah não se encolheu. Os pelos nunca mais voltaram a crescer sobre o machado.

O capitão só pousou sua esposa de freixo e ferro na cama quando ambos os gumes ficaram suficientemente afiados. Bocejando, ele despiu a roupa suja, atirou-a no chão e estendeu-se no colchão de palha. Pensar no ferrete fizera sua marca comichar, então ele teve que se coçar antes de fechar os olhos. Eu devia ter apanhado as laranjas que caíram, ele pensou, e adormeceu sonhando com o seu gosto ácido e doce, com a sensação pegajosa que o sumo vermelho deixava em seus dedos.

A aurora chegou cedo demais. À porta dos estábulos a menor das três liteiras transportadas por cavalos estava pronta, a de madeira de cedro com cortinas de seda vermelha. O capitão escolheu vinte lanceiros para acompanhá-la, fora os trinta que estavam postados nos Jardins de Água; o resto ficaria para proteger o terreno e as crianças, algumas das quais eram os filhos e filhas de grandes senhores e mercadores ricos.

Embora o príncipe tivesse falado em partir à primeira luz da aurora, Areo Hotah sabia que se atrasaria. Enquanto o meistre ajudava Doran Martell a tomar banho e enfaixava suas articulações inchadas com ataduras de linho embebidas em loções calmantes, o capitão vestiu o blusão de cobre que era próprio de seu posto, e um manto ondulante de sedareia castanha escura e amarela para manter o sol afastado do cobre. O dia prometia ser quente, e o capitão há muito tinha descartado a pesada capa de crina de 51

cavalo e a túnica de couro batido que usara em Norvos, capazes de cozinhar um homem em Dorne. Ele manteve o meio elmo de ferro com a sua crista de espigões afiados, mas agora ele usava-o enrolado em seda cor de laranja, entrançando o tecido entre e em volta dos espigões. De outro modo, o sol batendo no metal deixaria sua cabeça latejando antes de avistarem o palácio.

O príncipe ainda não estava pronto para partir. Ele decidiu quebrar o jejum antes de ir, com uma laranja de sangue e uma bandeja de ovos de gaivota cortados em cubos com pedaços de presunto e pimenta. Então não pôde deixar de se despedir das várias crianças que tinham se tornadas favoritas em especiaclass="underline" o rapaz Dalt, os filhos da Senhora Blackmont e a órfã de cara redonda cujo pai vendera tecidos e especiarias ao longo do Sangueverde. Doran manteve um magnífico cobertor de Myr sobre as pernas enquanto falava com eles para poupar os pequenos da visão de suas articulações inchadas e enfaixadas.

Era meio-dia quando se puseram a caminho; o príncipe em sua liteira, o Meistre Caleotte montado em um jumento, os outros a pé. Cinco lanceiros caminhavam à frente e outros cinco atrás, com outros dez flanqueando a liteira de ambos os lados. Areo Hotah ocupou seu lugar familiar à esquerda do príncipe, apoiando o machado num ombro enquanto caminhava. A estrada entre Lançassolar e os Jardins de Água corria junto ao mar, então eles tinham uma brisa fresca para mitigar o calor enquanto avançavam por uma região de terra vermelha acastanhada com pedras, areia e árvores retorcidas e raquíticas.

No meio do caminho, a segunda Serpente da Areia apanhou-os.

Ela apareceu de repente sobre uma duna, montada em um corcel dourado com uma crina que era branca e fina como a seda. Até a cavalo, a Senhora Nym parecia graciosa, vestida com vestes lilás cintilantes e uma grande capa de seda em tons de creme e cobre que se levantava a cada sopro do vento, fazendo parecer que ela podia levantar voo. Nymeria Sand tinha vinte e cinco anos, e era esguia como um salgueiro. O seu cabelo negro e liso, usado em uma longa trança atada com um fio vermelho-ouro, começava em um pico de viúva acima de seus olhos escuros, à semelhança de seu pai.

Com as suas maçãs do rosto altas, lábios cheios e pele branca como leite, ela possuía toda a beleza que faltava à sua irmã mais velha… mas a mãe de Obara tinha sido uma prostituta de Vilavelha, enquanto que Nym nascera do mais nobre sangue da antiga Volantis. Uma dúzia de lanceiros montados a seguia, os seus escudos redondos brilhando ao sol. Seguiram-na duna abaixo.

O príncipe tinha amarrado as cortinas da liteira para aproveitar melhor a brisa que soprava do mar. A Senhora Nym pôs-se a seu lado, retardando a sua bela égua dourada para igualar o ritmo da liteira.

— É bom vê-lo, tio. — Ela cantou, como se tivesse sido o acaso a trazê-la ali. — Posso seguir contigo até Lançassolar? — O capitão estava do lado oposto da liteira, mas ainda conseguia ouvir cada palavra que a Senhora Nym dizia.

— Ficaria feliz com isso. — Respondeu o Príncipe Doran, embora não soasse feliz aos ouvidos do capitão. — A gota e a tristeza dão fracos companheiros de estrada. — Com aquilo, o capitão soube que cada seixo do caminho era uma pontada em suas articulações inchadas.

— Não posso ajudar quanto à gota. — Disse ela. — Mas meu pai não tinha nenhum uso para a tristeza. A vingança era mais de seu gosto. É verdade que Gregor Clegane admitiu ter assassinado Elia e seus filhos?

— Rugiu sua culpa para que toda a corte ouvisse. — Admitiu o príncipe. — O Lorde Tywin prometeu-nos sua cabeça.

— E um Lannister sempre paga suas dívidas. — Disse a Senhora Nym. — E, no entanto, me parece que Lorde Tywin pretende nos pagar com as nossas próprias moedas. Recebi uma ave do nosso querido Sor Daemon, que jura que o meu pai fez cócegas àquele monstro mais de uma vez durante a luta. Se assim for, Sor Gregor é um homem morto, e não graças a Tywin Lannister.