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— Pode!

— Não pode!

Num instante, a plataforma ficou cheia de sombras que discutiam e gesticulavam. Para Ralph, sentado, isso parecia o fim da sanidade. Medo, bichos, nenhum consenso geral de que a fogueira era o mais importante: e quando alguém tentava arrumar as coisas, explodia a discussão, trazendo assuntos novos e desagradáveis.

Viu algo branco no escuro perto dele e tirou a concha de Maurice. Soprou com toda a força. Os meninos calaram-se imediatamente. Simon estava perto dele, com as mãos na concha. Simon sentia uma necessidade perigosa de falar, mas falar numa reunião era uma coisa terrível para ele.

— Talvez — disse hesitante —, talvez haja um bicho.

A reunião gritou selvagemente e Ralph ficou olhando, espantado.

— Você, Simon? Você acredita nisso?

— Não sei — disse Simon. As batidas do coração sufocavam-no. — Mas...

Explodiu a tormenta.

— Sente-se!

— Cale-se!

— Pegue a concha!

— Vá embora!

— Cale a boca!

Ralph gritou.

— Ouçam-no! Ele está com a concha!

— O que quero dizer é... talvez sejamos nós.

— Está louco!

Essa última exclamação foi de Porquinho, que chegou a perder o controle. Simon continuou.

— Poderíamos ser uma espécie de...

Simon não conseguiu falar, no seu esforço de exprimir o mal essencial da humanidade. A inspiração acabou chegando.

— Qual é a coisa mais suja que há?

Como resposta, Jack lançou no silêncio da incompreensão que se seguiu umas cruas sílabas expressivas. O alívio foi como um orgasmo. Os pequenos que haviam trepado no tronco empenado caíram de novo, mas ninguém ligou. Os caçadores gritaram de prazer.

O esforço de Simon desmoronou em ruínas; as risadas fustigaram-no cruelmente e ele se retraiu, indefeso, para seu lugar.

A assembleia acabou silenciando. Alguém falou fora de vez.

— Talvez ele queira dizer que é alguma espécie de fantasma.

Ralph levantou a concha e fixou a escuridão. A coisa mais clara era a praia pálida. Estariam os pequenos mais perto? Sim, não havia dúvidas sobre isso: estavam amontoados num apertado novelo de corpos na grama central. Um sopro de vento fez as palmeiras falarem e o barulho parecia muito alto, agora que a escuridão e o silêncio tornavam-no tão perceptível. Dois troncos cinzentos esfregaram-se com um rangido maligno que ninguém notara de dia.

Porquinho pegou a concha. Sua voz era indignada.

— Não acredito em fantasmas. Nunca!

Jack também ficou de pé, inexplicavelmente furioso.

— Quem se importa com o que você acredita, Gordinho?

— Estou com a concha!

Houve o som de uma breve luta e a concha mexeu-se para a frente e para trás.

— Devolva-me a concha!

Ralph enfiou-se entre eles e levou um soco no peito. Arrancou a concha de alguém e se sentou, sem fôlego.

— Já se falou demais de fantasmas. Deveríamos ter deixado isso para a luz do dia.

Soou uma voz anônima e sussurrante.

— Talvez o bicho seja isso, um fantasma.

Os meninos estremeceram como se o vento tivesse soprado.

— Estão falando demais fora de vez — disse Ralph —, e não podemos ter reuniões de verdade se não ligarmos para as regras.

Parou outra vez. O plano cuidadoso dessa reunião desmoronava.

— Que querem que eu diga agora? Errei ao fazer essa reunião tão tarde. Vamos votar, sobre os fantasmas, quero dizer; depois, vamos para as cabanas porque estamos todos cansados. Não é, Jack? Esperem. Digo aqui e agora que não acredito em fantasmas. Ou não acho que acredito. Mas não gosto de pensar neles. Não agora, no escuro. Mas vamos resolver o que está havendo.

Levantou a concha, por um momento.

— Muito bem. Eu acho que resolver o que está havendo é saber se há fantasmas ou não...

Pensou por um instante, formulando a questão.

— Quem acha que pode haver fantasmas?

Por bastante tempo, fez-se silêncio, sem qualquer movimento aparente. Então, Ralph fixou o escuro e vislumbrou as mãos. Falou, inexpressivamente.

— Entendi.

O mundo, aquele mundo compreensível e cheio de leis, estava desaparecendo. Antes havia isto e aquilo; agora, agora o navio fora embora.

A concha foi tirada das suas mãos e a voz de Porquinho guinchou.

— Eu não voto nos fantasmas!

Girou em redor de todos.

— Lembrem-se disso, vocês todos!

Ouviram-no bater o pé.

— O que somos? Humanos? Ou animais? Ou selvagens? O que os adultos irão pensar? Ir de qualquer jeito... caçar porcos... deixando a fogueira apagar... e agora!

Uma sombra caiu sobre ele, tempestuosamente.

— Cale a boca, sua lesma gorda!

Houve um momento de luta e a concha luzente balançou-se para cima e para baixo. Ralph ficou de pé, num salto.

— Jack! Jack! Você não está com a concha! Deixe-o falar.

O rosto de Jack surgiu ao seu lado.

— E você cale a boca. Quem é você, afinal? Sentado aí... dizendo o que todos devem fazer. Você não sabe caçar, não sabe cantar...

— Eu sou o chefe. Fui escolhido.

— E que diferença faz essa escolha? Só dando ordens que não têm nenhum sentido...

— Porquinho está com a concha.

— Certo... favoreça Porquinho como sempre faz...

— Jack!

A voz de Jack soou num arremedo amargo.

— Jack! Jack!

— As regras — gritou Ralph —, você está quebrando as regras!

— Que importa?

Ralph recorreu a toda a sua habilidade.

— Porque as regras são a única coisa que temos!

Mas Jack estava gritando contra ele.

— Que as regras vão pro inferno! Somos fortes, nós caçamos! Se houver um bicho, nós o caçaremos! Vamos cercá-lo e bater, bater, bater!...

Deu um grito selvagem e pulou para a areia pálida. De repente, a plataforma estava cheia de barulho e excitação, tropeções, gritos e risadas. A reunião se desagregou e se transformou em figuras dispersas que andavam falando, das palmeiras até a água e ao longo da praia, perdendo-se na escuridão. Ralph sentiu a concha tocar sua face e a tomou de Porquinho.

— O que os adultos irão dizer? — gritou Porquinho de novo. — Olhe para eles!

O som de uma caçada fingida, de risos histéricos e terror real vinha da praia.

— Sopre a concha, Ralph!

Porquinho estava tão perto que Ralph podia ver o brilho da sua única lente.

— A fogueira. Não percebem?

— Você precisa ser duro agora. Obrigue-os a fazer o que você quiser.

Ralph respondeu, com a voz cautelosa de quem recorda um teorema.

— Se eu soprar a concha e eles não voltarem, então não poderemos fazer nada. Não conseguiremos manter a fogueira acesa. Seremos como animais. Nunca seremos salvos.