— Quase me pegou...
Ralph apontou temerosamente para o rosto de Eric que estava lanhado pelos espinhos dos arbustos.
— Como aconteceu isso?
Eric levou a mão ao rosto.
— Estou todo arranhado. Estou sangrando?
O círculo de meninos encolheu-se de terror. Johnny, ainda bocejando, caiu num choro barulhento e foi esbofeteado por Bill até parar. A manhã brilhante estava cheia de ameaças e o círculo começou a mudar. Começaram a olhar mais para fora que para dentro e as lanças de madeira afiada eram como uma cerca. Jack chamou-os de volta para o centro.
— Vai ser uma caçada de verdade! Quem vem?
Ralph mexeu-se, com impaciência.
— Essas lanças são de madeira. Não seja bobo!
Jack olhou-o com desprezo.
— Está com medo?
— Claro que estou. Quem não está?
Virou-se para os gêmeos, como último recurso, mas sem esperança.
— Isso não é uma brincadeira, não é?
A resposta foi tão enfática que não houve mais dúvidas.
Porquinho pegou a concha.
— Nós não poderíamos ficar... bem... ficar aqui? Talvez o bicho não chegue perto daqui.
Se não houvesse a possibilidade de alguma coisa estar vigiando, Ralph teria gritado com ele.
— Ficar aqui? E vivermos cercados neste pedacinho de ilha, sempre à espera? Como iríamos arranjar comida? E a fogueira?
— Vamos já — disse Jack, intranquilo. — Estamos perdendo tempo.
— Não. E os pequenos?
— Que vão pro inferno!
— Alguém tem de cuidar deles.
— Ninguém cuidou até agora.
— Não era preciso! Agora é. Porquinho vai cuidar deles.
— Está certo. Deixe Porquinho longe do perigo.
— Mas pense um pouco. O que Porquinho pode fazer com um olho só?
O resto dos meninos olhava curiosamente de Jack para Ralph.
— E outra coisa. Você não pode fazer uma caçada como sempre, porque o bicho não deixa rastro. Se deixasse, você teria visto. Pelo que sabemos, o bicho pode andar de árvore em árvore.
Concordaram com ele.
— Então precisamos pensar.
Porquinho pegou seus óculos quebrados e limpou a lente restante.
— E nós, Ralph?
— Você está sem a concha. Tome.
— Quero dizer... e nós? Suponha que o bicho venha quando vocês estiverem fora. Não enxergo bem e se eu ficar com medo...
Jack interrompeu, com desprezo.
— Você está sempre com medo.
— Estou com a concha.
— Concha! Concha! — gritou Jack. — Não precisamos mais da concha. Sabemos quem deve falar. Que adianta Simon falar, ou Bill, ou Walter? Já é tempo de algumas pessoas saberem que têm de ficar quietas e deixar para os outros, nós, as decisões sobre as coisas...
Ralph não podia mais ignorar esse discurso. O sangue aqueceu as suas faces.
— Você está sem a concha — disse. — Sente-se.
O rosto de Jack ficou tão branco que as sardas pareciam pontinhos castanho-claros. Passou a língua nos lábios e ficou de pé.
— Isso é assunto de caçadores.
Os outros meninos olharam para Ralph, atentamente. Porquinho, sentindo-se incomodamente envolvido, pôs a concha aos pés de Ralph e se sentou. O silêncio ficou opressivo e Porquinho prendeu a respiração.
— Isso é mais que um assunto de caçadores — disse Ralph, enfim —, porque você não pode seguir o bicho. E você não quer ser salvo?
Virou-se para a assembleia.
— Vocês todos não querem ser salvos?
Olhou para Jack.
— Eu disse antes, a fogueira é a coisa principal. Agora, ela deve estar apagada.
A velha exasperação salvou-o e lhe deu a energia de atacar.
— Ninguém tem mais cabeça? Temos de reacender a fogueira. Você nunca pensa nisso, Jack, não é? Ou nenhum de vocês quer ser salvo?
Sim, eles queriam ser salvos, não havia dúvida sobre isso; com uma violenta reviravolta para o lado de Ralph, a crise passou. Porquinho respirou, afinal, deu um suspiro, tentou inspirar de novo e não conseguiu. Ficou deitado contra um tronco, de boca aberta e sombras azuis ao redor dos lábios. Ninguém se importou com ele.
— Agora pense, Jack. Há algum lugar em que você não esteve?
De má vontade, Jack respondeu.
— Só... claro! Lembra-se? Aquela ponta, onde as pedras estão empilhadas. Estive lá perto. A rocha faz uma espécie de ponte. Só há um jeito de subir.
— E o bicho deve morar ali.
Todo mundo falou ao mesmo tempo.
— Calem-se. Muito bem. É ali que vamos procurar. Se o bicho não estiver ali, subiremos a montanha para ver. E acenderemos a fogueira.
— Vamos.
— Vamos comer antes. Depois partiremos. — Ralph fez uma pausa. — É melhor levarmos lanças.
Após terem comido, Ralph e os grandes avançaram pela praia. Deixaram Porquinho amparado pela plataforma. O dia prometia, como os outros, ser um banho de sol sob uma abóbada azul. A praia estendia-se diante deles numa curva suave até que a perspectiva a unia à floresta; o dia ainda não avançara muito — estava longe de ser obscurecido pelos véus móveis das miragens. Por escolha de Ralph, seguiram um prudente caminho ao longo do terraço de palmeiras, em vez de se atreverem pela areia quente junto à água. Deixou Jack mostrar o caminho e Jack avançou com precaução teatral, embora pudessem ter visto um inimigo a uns vinte metros de distância. Ralph ia à retaguarda, grato por entregar a responsabilidade a outro por algum tempo.
Simon, andando na frente de Ralph, sentiu um sobressalto de incredulidade — um bicho com garras que arranhavam, que se sentava num cimo de montanha, que não deixava rastro e que, apesar de tudo, não era bastante rápido para pegar Sameeric. Cada vez que Simon pensava no bicho, surgia no seu íntimo a imagem de um ser humano, heroico e doente ao mesmo tempo.
Suspirou. Outras pessoas podiam levantar-se e falar numa reunião, aparentemente sem aquela terrível sensação de opressão da personalidade: podiam falar do que pensavam como se estivessem conversando com uma só pessoa. Deu um passo lateral e olhou para trás. Ralph vinha ali, com a lança sobre o ombro. Timidamente, Simon reduziu o passo até andar lado a lado com Ralph, olhando para ele através do montão de cabelo negro que lhe caía agora nos olhos. Ralph deu uma olhada de lado, sorriu constrangido como se houvesse esquecido que Simon pusera-se em ridículo, depois fixou o nada outra vez. Por um instante, Simon ficou feliz por ter sido aceito, depois parou de pensar em si mesmo. Quando tropeçou numa árvore, Ralph olhou com impaciência e Robert deu uma risada. Simon cambaleou e uma mancha branca na sua testa ficou vermelha, sumindo depois. Ralph deixou Simon de lado e voltou ao seu inferno pessoal. Terminariam por chegar ao castelo: e o chefe teria de ir na frente.
Jack veio correndo.
— Já vemos o lugar.
— Está bem. Vamos chegar o mais perto possível.
Seguiu Jack em direção ao castelo onde o chão subia levemente. À esquerda, ficava um emaranhado impenetrável de trepadeiras e árvores.