Porquinho estava indignado.
— Eu estou falando com você, Ralph, mas você fica aí assim...
Olhando para Porquinho sem vê-lo, Ralph falou baixinho para si mesmo.
— Ele voltará. Quando o sol sumir, ele virá. — Olhou para a concha na mão de Porquinho.
— O quê?
— Ah, bom!
Porquinho desistiu de tentar repreender Ralph. Limpou o vidro outra vez e voltou ao seu assunto.
— Podemos continuar sem Jack Merridew. Há outros além dele nesta ilha. Mas agora temos um bicho de verdade, embora mal possa acreditar nele; precisamos ficar perto da plataforma; haverá menos necessidade dele e da sua caça. Agora podemos decidir realmente sobre o que está havendo.
— Não adianta, Porquinho. Não podemos fazer nada.
Por um instante, sentaram-se, num silêncio deprimido. Simon levantou-se, afinal, e pegou a concha de Porquinho, que ficou tão espantado a ponto de continuar de pé. Ralph olhou para Simon.
— Simon? O que é agora?
Um som apagado de zombaria passou pelos meninos e Simon estremeceu.
— Acho que deve haver alguma coisa para fazer. Algo que nós...
A pressão dos meninos fez sua voz vacilar novamente. Procurou ajuda e simpatia, escolhendo Porquinho. Virou-se na direção dele, apertando a concha contra seu peito bronzeado.
— Acho que deveríamos subir a montanha.
O círculo estremeceu de medo. Simon não falou mais e se virou para Porquinho, que o olhava com uma expressão de incompreensão divertida.
— Para que subir lá onde está o bicho se Ralph e os outros dois não puderam fazer nada?
Simon sussurrou uma resposta.
— Que mais podemos fazer?
Acabando de falar, deixou Porquinho tirar a concha das suas mãos. Então se afastou e se sentou tão longe dos outros quanto possível.
Porquinho falava agora com mais segurança e com prazer — coisa que os outros teriam percebido se as circunstâncias não fossem tão graves.
— Digo que podemos ir em frente sem uma certa pessoa. Agora, digo que precisamos decidir o que iremos fazer. E acho que posso lhes dizer o que Ralph vai dizer. A coisa mais importante da ilha é a fumaça e não podemos ter fumaça sem uma fogueira.
Ralph fez um movimento intranquilo.
— Ora, Porquinho. Não teremos fogueira. Aquela coisa está sentada lá em cima... precisamos ficar aqui.
Porquinho levantou a concha como que para dar força às suas próximas palavras.
— Não temos fogueira na montanha. Mas que mal há numa fogueira aqui? Podemos fazer uma fogueira nas pedras. Até na areia. Vai fazer fumaça do mesmo jeito.
— É mesmo!
— Fumaça!
— Ao lado da piscina!
Os meninos começaram a gritar. Só Porquinho poderia ter a ousadia intelectual de sugerir que se mudasse a fogueira.
— Então vamos fazer a fogueira aqui embaixo — disse Ralph. Olhou em volta. — Podemos fazê-la bem aqui, entre a piscina e a plataforma. Claro...
Interrompeu-se, franzindo a testa, pensando na coisa, mordendo uma unha distraidamente.
— Claro que a fumaça não vai ser grande coisa, não será vista de longe. Mas não precisaremos ir lá perto; perto do...
Os outros sacudiram as cabeças, compreendendo perfeitamente. Não seria preciso ir lá perto.
— Vamos fazer a fogueira agora.
As maiores ideias são as mais simples. Agora havia algo para ser feito e trabalharam com empenho. Porquinho estava tão cheio de alegria e liberdade expansiva com a partida de Jack, tão cheio de orgulho por sua contribuição para o bem da sociedade, que ajudou a pegar madeira. A madeira que ele arranjou estava bem perto, uma árvore caída na plataforma, que não era usada para as reuniões. Mas, para os outros, a santidade da plataforma protegera até o que era inútil ali. Os gêmeos perceberam que agora a fogueira ficaria perto deles, como sinal de tranquilidade na noite; isso fez alguns dos pequenos dançarem e baterem palmas.
A madeira não estava tão seca quanto a que haviam usado na montanha. Parte dela estava úmida e podre, pululante de insetos. Era preciso levantar os troncos do solo com cuidado, senão eles se desfaziam em pó molhado. Além disso, para evitar entrar na floresta, os meninos atarefavam-se com qualquer madeira caída nas proximidades, mesmo que estivesse envolvida por novos arbustos. As vizinhanças da floresta e da escarpa eram familiares, perto da concha e das cabanas, suficientemente amistosas à luz do dia. Mas ninguém se importava em pensar o que poderia acontecer à noite. Trabalharam assim com grande energia e alegria, embora à medida que o tempo avançava houvesse um toque de pânico na energia e de histeria na alegria. Fizeram uma pirâmide de folhas e ramos, galhos e troncos, na areia perto da plataforma. Pela primeira vez desde que estava na ilha, Porquinho tirou os óculos, ajoelhou-se e focalizou o sol na lenha. Logo havia um teto de fumaça e um monte de chamas amareladas.
Os pequenos, que haviam visto poucas fogueiras desde a primeira catástrofe, ficaram violentamente excitados. Dançaram e cantaram: havia um ar de festa no grupo.
Finalmente, Ralph parou de trabalhar e ficou de pé, tirando o suor do rosto com um antebraço sujo.
— Precisamos ter uma fogueira pequena. Esta é grande demais para tomarmos conta.
Porquinho sentou-se cuidadosamente na areia e começou a limpar sua lente.
— Podemos experimentar. Podemos fazer uma fogueira pequena e colocar galhos verdes nela para fazer fumaça. Algumas das folhas devem ser melhores que outras para isso.
À medida que a fogueira se apagava, arrefecia a excitação. Os pequenos pararam de cantar e dançar, espalhando-se na direção do mar, das árvores frutíferas ou das cabanas.
Ralph jogou-se na areia.
— Precisamos fazer uma nova lista para ver quem vai cuidar do fogo.
— Se puder encontrá-los.
Olhou em volta. Então, pela primeira vez, viu que havia ali poucos dos grandes e entendeu por que o trabalho fora tão duro.
— Onde está Maurice?
Porquinho limpou os óculos de novo.
— Espero... não, ele não entraria sozinho na floresta, não é?
Ralph ficou de pé num pulo, correu em volta da fogueira e voltou para junto de Porquinho, segurando os cabelos.
— Mas precisamos ter uma lista! Você, eu, Sameeric e...
Não olhou para Porquinho, mas falou em tom indiferente.
— Onde estão Bill e Roger?
Porquinho inclinou-se para a frente e pôs um pedaço de madeira na fogueira.
— Espero que tenham ido embora. Espero que também não queiram brincar.
Ralph sentou-se e começou a fazer buraquinhos na areia. Surpreendeu-se ao ver que um tinha uma gota de sangue. Examinou suas unhas roídas de perto e viu o pequeno globo de sangue que surgia onde o sabugo fora mordido.
Porquinho continuou a falar.
— Vi-os fugindo quando estávamos pegando madeira. Foram daquele lado. Do mesmo lado que ele foi.
Ralph terminou sua inspeção e olhou para cima. O céu, como que acompanhando as grandes mudanças entre eles, estava diferente, tão cheio de nuvens que em alguns lugares o ar quente parecia branco. O disco do sol estava todo prateado como se estivesse mais próximo e não tão quente, mas o ar estava abafado...