O carro avançou e deteve-se no momento em que o Don chegava ao último degrau. Stace saltou do banco traseiro para a rua, com o carro entre ele e o seu alvo. Com um movimento rápido, apoiou a arma no teto, segurando-a com as duas mãos. Só disparou duas vezes.
A primeira bala atingiu o Don no meio da testa. A segunda rasgou-lhe a garganta. O sangue jorrou para o passeio, salpicando a luz amarelada do Sol com pingos cor-de-rosa.
No mesmo instante, no passeio, Franky disparou uma longa rajada da Uzi por cima da multidão.
Uma fração de segundo depois, os dois homens estavam no carro e Heskow acelerava avenida abaixo. Minutos mais tarde, metiam pelo túnel e rumavam ao pequeno aeroporto, onde um jato particular os aguardava.
Quando soaram os primeiros tiros, Valerius empurrou a mulher e o filho para o chão e cobriu-os com o próprio corpo. Na realidade, nada viu do que se passou. E Nicole, que olhava para o pai com o espanto estampado no rosto, também não. Marcantonio via sem compreender. A realidade era tão diferente da ficção das suas séries de televisão. A bala que atingira o Don na testa abrira-lhe a cabeça como se fosse uma melancia madura, deixando ver a massa de miolos e de sangue no interior. O tiro na garganta arrancara um grande pedaço de carne, como se o Don tivesse sido golpeado com uma faca de magarefe. E havia uma enorme quantidade de sangue no passeio à sua volta. Mais sangue do que se imaginaria existir num corpo humano. Marcantonio viu os dois homens com as máscaras brancas em forma de concha a cobrirem-lhes o rosto; viu também as armas que empunhavam, mas pareciam irreais. Não saberia dar qualquer indicação a respeito das roupas ou da cor dos cabelos. Ficou paralisado pelo choque. Nem sequer teria sabido dizer se eram brancos ou negros, se estavam nus ou vestidos. Tanto podiam ter três metros de altura como um.
Astorre, porém, ficara alerta mal vira o Sedan parar. Viu Stace disparar a arma e pensou que tinha usado a mão esquerda para apertar o gatilho. Viu Franky disparar a Uzi e era indiscutivelmente canhoto. Apanhou um relance do condutor, um homem de cabeça redonda, obviamente pesado. Os dois atiradores moviam-se com a agilidade de atletas treinados. Quando se atirou ao chão, estendeu os braços para arrastar o Don consigo, mas chegou uma fração de segundo demasiado tarde. E agora estava coberto com o sangue do Dom
Então viu as crianças fugirem num turbilhão de pânico, com uma grande mancha vermelha no centro. Estavam a gritar. Viu o Don espalhado nos degraus, como se a morte lhe tivesse desconjuntado o próprio esqueleto. E sentiu um medo enorme do que tudo aquilo ia fazer à sua vida e às vidas daqueles que amava.
Nicole aproximou-se do corpo estendido. Os joelhos dobraram-se-lhe sem que desse por isso, e ajoelhou junto dele. Silenciosamente, estendeu a mão e tocou na garganta dilacerada do pai. E então chorou como se fosse chorar para sempre.
Capítulo 3
O assassínio de Don Raymonde Aprile foi um acontecimento que deixou atônito o seu antigo mundo. Quem se teria atrevido a matar um tal homem, e com que objetivo? Doara todo o seu império, já nada tinha que lhe pudessem tirar. Morto, não mais poderia distribuir as suas generosas dádivas nem usar a sua influência para ajudar algum desgraçado a contas com a lei ou com a sorte.
Tratar-se-ia de uma vingança há muito adiada? Haveria algures um ganho escondido que acabaria por surgir à luz? Podia ter sido uma mulher, claro, mas o Don enviuvara havia quase trinta anos, e nunca durante todo esse tempo lhe tinham conhecido amantes; que se soubesse, não fôra particularmente admirador da beleza feminina. Os filhos estavam acima de qualquer suspeita. Além disso, o golpe fora obra de profissionais, e nenhum deles tinha os contatos necessários.
Por isso aquela morte era não só misteriosa, mas quase sacrílega. Um homem que inspirara tanto medo, que escapara impune às perseguições da lei e às ambições dos chacais que o rodeavam enquanto governava, durante mais de trinta anos, um império criminoso, morto daquela maneira. E a ironia de tudo aquilo. Quando finalmente encontrava o caminho da retidão e se colocava sob a proteção da sociedade, vivera apenas mais três curtos anos.
Ainda mais estranho foi a pouca celeuma que o caso provocou. Os meios de comunicação depressa largaram a história, a Policia nada adiantava e o FBI declarou que se tratava de uma questão meramente local. Era como se toda a fama e todo o poder de Don Aprile se tivessem esfumado em apenas três anos de afastamento.
O submundo não mostrou interesse. Não houve mortes retaliatórias, todos os amigos e ex-fiéis vassalos do Don pareciam tê-lo esquecido. Até os filhos deram a impressão de ter atirado toda aquela história para trás das costas e aceitado a morte do pai.
Ninguém pareceu preocupar-se... exceto Kurt Cilke.
Kurt Cilke, agente do FBI encarregado da secção de Nova Iorque, resolveu envolver-se no caso, embora se tratasse de um homicídio estritamente local e da competência exclusiva da policia.
Decidiu entrevistar a família Aprile.
Um mês volvido sobre o funeral do Don, apresentou-se, acompanhado pelo seu ajudante Bill Boxton, para uma conversa com Marcantonio Aprile. Iam ter de tratá-lo com muito cuidado. O homem era diretor de programas de uma das maiores redes de televisão nacionais e gozava de uma influência considerável em Washington. Um delicado telefonema marcara a entrevista através da secretária.
Marcantonio recebeu-os no luxuoso e vasto gabinete que ocupava no quartel-general da estação em Nova Iorque. Foi simpaticíssimo, ofereceu-lhes café, que ambos recusaram. Era um homem alto e bem-parecido, elegantemente vestido com um terno escuro e uma extraordinária gravata vermelha e rosa assinada por um designer cujos principais clientes eram os mais conhecidos pivots e entertainers da TV.
― Estamos a colaborar na investigação do assassínio do seu pai ― explicou Cilke. ― Tem conhecimento de alguém que pudesse querer-lhe mal?
― Não faço a mais pequena idéia ― respondeu Marcantonio, com um sorriso. ― O meu pai mantinha-nos a todos à distância, até os netos. Crescemos completamente alheados do seu círculo de relações profissionais ― acrescentou, fazendo com a mão um pequeno gesto apologético.
Cilke não gostou daquele gesto.
― Quanto a si, qual foi o motivo? ― perguntou.
― Os senhores conhecem o passado do meu pai ― respondeu Marcontonio, num tom mais sério. ― Nunca quis que os filhos se envolvessem nas suas atividades. Mandou-nos para colégios internos, e depois para universidades, para conquistarmos o nosso próprio lugar no mundo. Nunca foi jantar a nossas casas. Esteve presente quando nos formamos, e foi tudo. E evidentemente, quando compreendemos porquê, ficamos-lhe gratos.
― Subiu muito depressa na sua carreira ― observou Cilke. ― Talvez ele o tenha ajudado um pouco?
Pela primeira vez, Marcantonio foi menos do que afável.
― Nunca! Não é invulgar na minha profissão um jovem subir rapidamente. O meu pai mandou-me para as melhores escolas e dava-me uma mesada muito generosa. Usei esse dinheiro da melhor maneira, e fiz as escolhas certas.
― E o seu pai estava satisfeito com isso? ― perguntou Cilke. Observava atentamente o seu interlocutor, procurando ler-lhe as mais pequenas expressões.
― Creio que nunca compreendeu verdadeiramente o que eu fazia, mas sim, estava satisfeito ― respondeu Marcantonio, secamente.
― Sabe ― continuou Cilke ―, andei atrás do seu pai durante vinte anos, e nunca consegui apanhá-lo. Era um homem muito esperto.
― Bem nós também não ― disse Marcantonio. ― Nem o meu irmão, nem a minha irmã, nem eu.