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― E não têm sentimentos de vingança siciliana? ― perguntou Cilke com uma pequena gargalhada, como se aquilo fosse uma brincadeira. Não tentariam qualquer coisa nessa linha?

― Certamente que não. O nosso pai ensinou-nos a não pensar desse modo. Mas, por mim, espero que apanhem o assassino.

― E o testamento? ― continuou Cilke. ― Era um homem muito rico.

― Quanto a isso, vai ter de perguntar à minha irmã Nicole ― respondeu Marcontonio. ― É ela a testamenteira.

― Mas conhece o seu conteúdo?

― Com certeza ― disse Marcantonio, e a sua voz soou fria e dura como o aço.

― E não consegue lembrar-se de ninguém que quisesse fazer-lhe mal? ― perguntou Boxton, intervindo pela primeira vez na conversa.

― Não. Se tivesse um nome, é evidente que lhes diria.

― OK. ― disse Cilke. - Vou deixar-lhe o meu cartão. Para o caso de lhe ocorrer alguma coisa.

Antes de falar com os dois outros filhos do Don, Cilke decidiu ter uma conversa com o chefe do Departamento de Investigação Criminal da cidade. Como não queria deixar qualquer rasto oficial, convidou Paul Di Benedetto para almoçar num dos mais caros restaurantes italianos do East Side. Di Benedetto adorava os pequenos luxos da boa vida, desde que não tivesse de pagá-los do seu próprio bolso.

Os dois homens eram velhos conhecidos, e Cilke sempre apreciara a companhia de Paul. Agora, estava a vê-lo beliscar desdenhosamente um pouco de cada prato.

― E então? ― disse Di Benedetto. ― Não é todos os dias que os “fedes” abrem os cordões à bolsa desta maneira. O que é que há?

― Foi uma refeição excelente, não foi? ― comentou Cilke, como se não tivesse ouvido a pergunta. misturado com gasosa.

Di Benedetto encolheu pesadamente os ombros, como o rolar de uma vaga. Depois sorriu, com um toque de malícia. Para um homem de aspecto tão duro, tinha um sorriso encantador. Transformava-lhe completamente o rosto, fazendo-o parecer uma adorável personagem de Walt Disney.

― Ouve, Kurt ― disse ―, este lugar é uma treta. Os donos são extraterrestres. Conseguem que a comida pareça italiana, até conseguem que cheire a comida italiana, mas a verdade é que sabe a açorda de Marte. Estes tipos são alienígenas, digo-te eu.

Cilke riu-se.

― Talvez. Mas o vinho é ótimo.

― A mim sabe-me tudo a remédio, a menos que seja tinto barato.

― És difícil de contentar ― observou Cilke.

― Não, sou até muito fácil de contentar. E é aí que está o problema. Cilke suspirou. ― Duzentos dólares de dinheiro do governo deitados à rua.

― Oh, não, apreciei o gesto ―- declarou Di Benedetto. ― Então, o que é que há?

Cilke pediu café para os dois antes de responder.

― Estou a investigar a morte de Don Aprile. Um dos teus casos, Paul. Andamos-lhe no encalço durante anos, e nada. O homem retira-se, passa a viver honestamente. Não tinha nada que alguém pudesse querer. Para quê matá-lo? Ainda por cima, uma coisa tão perigosa.

― Muito profissional ― comentou Di Benedetto. ― Um belo trabalho.

― E então? ― pressionou Cilke.

― Não faz ponta de sentido. Limpaste a maior parte dos chefões da Máfia. Um trabalho brilhante, diga-se de passagem. Os meus parabéns. Talvez até tenhas obrigado o Don a retirar-se. Mas a verdade é que, com tudo isto, os macacos que restaram não tinham qualquer razão para liquidá-lo.

― E os bancos de que ele era dono? ― inquiriu Cilke.

Di Benedetto agitou a mão que segurava o charuto.

― Isso é do teu departamento. Nós só lidamos com a ralé.

― E a família? ― insistiu Cilke. ― Drogas, mulheres, qualquer coisa?

― Nada de nada. Todos eles cidadãos íntegros, com belas carreiras profissionais. Foi assim que o Don planeou as coisas. Queria que fossem absolutamente inatacáveis. ― Fez uma pausa, e quando voltou a falar a sua voz soou mortalmente séria. ― Não foi uma vingança. O velho tinha resolvido todos os seus assuntos com toda a gente. Não foi por acaso. Tem de haver uma razão. Alguém ganha. É disso que andamos à procura.

― E o testamento?

― A leitura é amanhã. Perguntei à filha. Disse-me que esperasse.

― E tu ficaste-te? ― estranhou Cilke.

― Claro. É uma advogada da alta, conhece uma porção de gente, e a família a que está ligada é uma força política. Por que raio havia de armar-me em duro com ela? Ouvi e calei.

― Talvez eu consiga fazer melhor.

― Aposto que sim.

Kurt Cilke conhecia a comandante-adjunta do Dick, Aspinella Washington, passava de dez anos. Era uma afro-americana com mais de um metro oitenta de altura, cabelos muito curtos e feições finamente cinzeladas, e aterrorizava tanto os policias que chefiava como os criminosos que prendia. Por uma questão de princípio, comportava-se sempre o mais ofensivamente que podia, e a verdade é que não gostava muito de Cilke nem do FBI.

Recebeu Cilke no seu gabinete, disparando logo de entrada:

― Então, Kurt, estás aqui para enriquecer mais um dos meus irmãos negros?

― Não, Aspinella ― respondeu ele, com uma gargalhada. ― Venho em busca de informação.

― Palavra? De borla? Depois de teres custado à cidade cinco milhões de dólares?

Vestia um casaco safári e calças castanhas. A arma no coldre axilar era claramente visível. O diamante do anel que usava na mão direita parecia capaz de cortar tecido facial como uma navalha de barba. Nunca perdoara a CIA e ao FBI terem provado um caso de brutalidade policial que mandara dois dos seus detetives para a prisão e com base no qual a vítima, alegando violação dos seus direitos civis, ganhara um mega-processo. O queixoso, que ficara rico, fôra um chulo e traficante de droga que a própria Aspinella espancara violentamente. Apesar de ter sido nomeada comandante-adjunta num descarado piscar de olho aos votos dos negros, mostrava-se invariavelmente mais dura para com os criminosos de cor do que para com os brancos.

― Para de espancar inocentes ― atirou-lhe Cilke ―, e eu paro de te chatear.

― Nunca tramei ninguém que não fosse culpado ― replicou ela, sorrindo.

― Estou a investigar o assassínio de Don Aprile ― anunciou Cilke, mudando bruscamente de assunto.

― E que tens tu a ver com isso? É um assunto local. Ou andas a ver se consegues transformar essa merda noutro caso de direitos civis?

― Bom, talvez esteja relacionado com divisas ou drogas.

― Como é que podes saber uma coisa dessas?

― Temos os nossos informadores.

Subitamente, Aspinella lançou-se num dos seus acessos de fúria.

― Tu, meu sacana do FBI, vens para aqui pedir informações e não me dás nada em troca? Nem para os polícias honestos vocês são decentes! Andam por aí, com ares superiores, a prender os filhos da puta que roubam o governo. Nunca se metem no trabalho sujo. Nem sequer fazem porra de idéia do que isso seja. Desaparece daqui para fora!

Cilke ficou satisfeito com as duas conversas. Havia ali um padrão evidente. Tanto Di Benedetto como Aspinella iam fechar-se em copas no respeitante ao assassínio de Don Aprile. Nenhum deles cooperaria com o FBI. Limitar-se-iam a fingir que investigavam. Em resumo, tinham ambos sido subornados.

Havia um motivo para esta sua convicção. Sabia que o tráfico de droga só podia sobreviver desde que a polícia fosse comprada, e sabia, embora nunca pudesse prová-lo em tribunal, que Di Benedetto e Aspinella estavam a soldo dos barões da droga.