Ficou a saber que os cavalos que vira no prado eram a paixão de Astorre. Que todas as manhãs limpava e escovava pessoalmente o garanhão que ia montar. O que não era assim tão mau, não fosse o estranho hábito que tinha de usar nos seus passeios o traje à inglesa completo, com casaco encarnado e tudo, incluindo o ridículo barretinho preto.
Achou estranho que Astorre parecesse um alvo tão fácil que três vadios de Central Park tivessem tentado assaltá-lo. Conseguira escapar, segundo parecia... mas o relatório da polícia era pouco claro quanto ao que acontecera aos assaltantes.
E um deste dias apanhamo-lo.
Duas semanas mais tarde, Cilke e Boxton puderam ouvir o resultado das escutas feitas em casa de Astorre Viola. As vozes eram de Nicole, Marcantonio, Valerius e do próprio Astorre. Nas gravações, como que se humanizavam, pensou Cilke; tinham tirado as máscaras.
― Por que foi que o mataram? ― perguntou Nicole, com a voz quebrada pelo desgosto, sem o mais pequeno vestígio da frieza que ostentara face a Cilke.
― Tem de haver uma razão ― respondeu Valerius, sobriamente. A voz tornava-se-lhe meiga quando falava com a família. ― Nunca tive quaisquer contatos com os negócios do velho, por isso não estou preocupado comigo. Mas, e tu?
Marcantonio falou desdenhosamente; era óbvio que não gostava do irmão:
― Val, o velho meteu-te em West Point porque eras um caguinchas. Queria endurecer-te. Depois ajudou-te no teu trabalho para os Serviços Secretos, no estrangeiro. Não penses que estás fora disto. Adorava a idéia de ver-te chegar a general. General Aprile... O som da coisa agradava-lhe. Sabe-se lá que cordelinhos terá puxado. ― A voz dele soava muito mais enérgica, mais apaixonada, na gravação do que pessoalmente.
Seguiu-se uma longa pausa, e então novamente Marcantonio:
― É claro que foi ele que me lançou. Financiou a minha produtora. As grandes agências facilitaram-me a contratação das suas estrelas. A verdade é que nós nunca estivemos presentes na vida dele, mas ele esteve sempre nas nossas. Nicole, o velho poupou-te dez anos de pagamento de quotas quando te deu aquele lugar na firma de advogados. E tu, Astorre, quem julgas que conseguiu colocar o teu macaroni em todos os supermercados?
Subitamente, Nicole estava furiosa.
― O Papa pode ter-me aberto a porta, mas a única responsável pelo sucesso que tenho tido sou eu própria. Tive de lutar taco-a-taco, com os tubarões da firma por tudo o que consegui. Era eu quem trabalhava oitenta horas por semana a ler as tais cláusulas em letra miudinha. ― Fez uma pausa, e a sua voz voltou a soar carregada de frieza. Devia ter-se voltado para Astorre. ― E quero saber por que foi que o Papá te pôs à frente dos bancos. Que diabo tens tu a ver seja com o que for?
O tom de Astorre foi desesperadamente apologético.
― Nicole, não faço a mais pequena idéia. Não lhe pedi nada. Tenho o meu negócio, e do que eu gosto é de cantar e andar a cavalo. Além disso há um lado bom para ti. Eu é que tenho o trabalho todo, e os lucros são divididos igualmente por nós os quatro.
― Mas tu tens o controle, e és apenas um primo ― protestou Nicole. E acrescentou, sarcasticamente ―: O velho devia com certeza gostar muito de te ouvir cantar.
― Vais tentar gerir os bancos sozinho? - interveio Valerius.
A voz de Astorre encheu-se de fingido horror.
― Oh, não, não! A Nicole vai dar-me uma lista de nomes. Um administrador-geral encarregar-se-á disso.
― Continuo a não perceber por que foi que o papá não me escolheu a mim ― voltou Nicole à carga, com lágrimas de frustração na voz. ― Porquê?
― Porque não queria que nenhum dos filhos tivesse poder sobre os outros ― disse Marcantonio.
― Talvez fosse para mantê-los a todos afastados do perigo ― sugeriu Astorre, apaziguadoramente.
― E esse tipo do FBI que teve a lata de vir ter conosco como se fosse o nosso melhor amigo? ― comentou Nicole. ― Perseguiu o papá durante anos. E agora pensa que vamos contar-lhe de mão beijada todos os segredos da família. Que cretino.
Cilke sentiu um rubor subir-lhe às faces. Não merecia aquilo.
― Está a fazer o seu trabalho ― contrapôs Valerius. E não é um trabalho fácil. Deve ser um homem muito inteligente. Mandou para a prisão muitos dos amigos do velho. E por longo tempo.
― Traidores, informadores ― retorquiu Nicole, desdenhosamente. E essas leis Rico, que aplicam de uma maneira tão seletiva. Se as levassem a sério, mandavam metade dos nossos líderes políticos para a prisão, e a maior parte dos Quinhentos da Fortune.
― Nicole, pelo amor de Deus, tu trabalhas em direito empresarial atirou-lhe Marcantonio. ― Deixa-te de tretas.
― Onde será que os agentes do FBI arranjam aqueles ternos tão giros? ― perguntou Astorre, pensativamente. ― Haverá um “alfaiate, especial do FBI”?
― O segredo está na maneira como os usam ― explicou Marcantonio. ― Mas na TV nunca conseguimos um boneco exatamente como esse tal Cilke. Perfeitamente sincero, perfeitamente honesto, respeitável em todos os aspectos. E no entanto, ninguém confia nele.
― Marc, deixa lá essas tuas historietas da televisão ― interrompeu-o Valerius. ― Temos aqui uma situação hostil. E há aspectos significativos em termos de informação. O porquê e o quem. Por que foi que mataram o pai? E quem poderá ter sido? Todos dizem que não tinha inimigos nem nada que alguém quisesse.
― Registrei um pedido para ver o processo do papá no Bureau ― anunciou Nicole. ― Talvez nos dê alguma pista.
― Para quê? ― perguntou Marcantonio. ― Não podemos fazer nada. O pai havia de querer que esquecêssemos o assunto. O caso é com as autoridades.
― Estás-te então nas tintas para quem matou o papá? ― atirou-lhe Nicole, desdenhosa. ― E tu, Astorre, pensas o mesmo?
Astorre respondeu num tom de voz suave, persuasivo:
― Que podemos nós fazer? Amava o teu pai. Estou-lhe grato por ter sido tão generoso para comigo no seu testamento. Mas esperemos para ver o que acontece. Por mim, gosto desse Cilke. Se houver alguma coisa a descobrir, ele descobre-a. Todos nós temos boas vidas, para que estragá-las? ― Fez uma pausa e acrescentou ―: Ouçam, tenho uma reunião com um dos meus fornecedores, de modo que preciso de sair. Mas vocês podem ficar aqui a discutir o assunto.
Seguiu-se um longo silêncio na gravação. Cilke não conseguia impedir-se de sentir boa vontade para com Astorre e ressentimento contra os outros. Mas estava satisfeito. Não eram pessoas perigosas; não iam causar-lhe problemas.
― Adoro o Astorre ― disse então a voz de Nicole. ― Estava mais próximo do nosso pai do que qualquer de nós. Mas é tão extravagante. Marc, achas que vai a algum lado com aquelas canções?
Marcantonio riu-se:
― Vemos milhares de tipos como ele na nossa atividade. É como uma dessas estrelas de futebol dos pequenos liceus. É giro, mas não é verdadeiramente bom. De qualquer maneira, tem um bom negócio de que gosta, por isso não vejo qual é o problema.
― Controla bancos que valem bilhões de dólares... todos os nossos bens... e só pensa em cantar e andar a cavalo ― resmungou Nicole.
― A fatiota é esplêndida, mas monta execravelmente ― observou Valerius, com rude humor.
― Por que terá o papá feito uma coisa destas? ― murmurou Nicole.
― A verdade é que se saiu muito bem com o tal negócio do macarrão ― contemporizou Valerius.
― Temos de protegê-lo ― declarou Nicole É demasiado boa pessoa para gerir bancos e demasiado confiante para lidar com esse Cilke.