Выбрать главу

— Não, Yoshinaka-san. Ouvimos dizer que ela ainda está repousando, sem sofrimento. — Mariko sorriu para Blackthorne. — Vamos sentar lá, Anjin-san?

Ele a seguiu. Kiri voltou aos seus aposentos e os cinzentos se postaram junto às portas da sala de audiências.

O capitão dos cinzentos ficou perto de Yoshinaka, a alguns passos dos outros. — Não gosto disso — sussurrou ele asperamente.

— A Senhora Toda vai puxar uma espada e matá-lo? Sem ofensa, onde estão os seus miolos?

Yoshinaka afastou-se coxeando para examinar os outros postos. O capitão olhou para o estrado. Mariko e o Anjin-san estavam sentados um diante do outro, bem iluminados por archotes. Ele não conseguia ouvir o que estavam dizendo. Concentrou-se nos lábios deles mas nem assim conseguiu entender, embora seus olhos fossem muito bons e ele soubesse falar português. Suponho que estejam falando a língua dos santos padres de novo, pensou. Língua hedionda, impossível de aprender.

E depois, que importância tem? Por que ela não deveria conversar com o herege em particular, se é isso o que quer? Nenhum dos dois vai durar muito tempo mais neste mundo. Muito triste. Oh, bendita Nossa Senhora, tome-a sob a sua guarda eterna, pela sua bravura.

— Latim é mais seguro, Anjin-san. — O leque dela fez um mosquito fugir zumbindo.

— Eles podem nos ouvir daqui?

— Não, não creio, se mantivermos a voz baixa e conversarmos conforme você ensinou, com muito pouco movimento da boca.

— Bom. O que ocorreu com Kiyama? — Eu o amo.

— E eu a amo. — Senti saudades. — Eu também. Como podemos nos encontrar sozinhos?

— Esta noite não é possível. Amanhã à noite será, meu amor. Tenho um plano.

— Amanhã? Mas e a sua partida?

— Amanhã eles podem me deter, Anjin-san — por favor, não se preocupe. Depois de amanhã estaremos todos livres para partir como desejarmos. Amanhã à noite, se eu for detida, estarei com você.

— Como?

— Kiri me ajudará. Não me pergunte como, o quê ou por quê. Será fácil...

Parou quando criadas trouxeram os pequenos braseiros. Logo os fios espiralados de fumaça repeliram as criaturas da noite. Quando se viram seguros de novo, conversaram sobre a viagem, contentes apenas com o fato de estarem juntos, amando-se sem se tocarem, sempre evitando falar em Toranaga e na importância do dia seguinte. Então ele disse: — Ishido é meu inimigo. Por que todos esses guardas estão à minha volta?

— Para protegê-lo. Mas também para vigiá-lo de perto. Penso que Ishido também poderia desejar usá-lo contra o Navio Negro e Nagasaki, o Senhor Kiyama e o Senhor Onoshi.

— Ah, sim, também pensei nisso.

Ela viu os olhos dele a esquadrinhá-la. — O que é, Anjin-san? — Ao contrário do que crê Yabu, acho que você não é estúpida, que tudo esta noite foi dito intencionalmente, deliberadamente planejado — por ordem de Toranaga.

Ela alisou uma ruga no seu quimono de brocado. — Ele me deu ordens. Sim.

Blackthorne passou ao português. — Ele a traiu. Você é um engodo. Sabe disso? É apenas uma isca para uma das armadilhas dele.

— Por que diz isso?

— Você é a isca. É óbvio, não é? Yabu é isca. Toranaga mandou-nos todos para cá como um sacrifício.

— Não, engana-se, Anjin-san. Sinto muito, mas está enganado.

Em latim ele disse: — Digo-lhe que é linda e a amo, mas que é mentirosa.

— Ninguém nunca me disse isso antes.

— Você também disse que ninguém tinha dito "Eu a amo". Ela baixou os olhos para o leque. — Vamos conversar sobre outras coisas.

— O que Toranaga ganha sacrificando-nos? Ela não respondeu.

— Mariko-san, tenho o direito de lhe perguntar. Não estou com medo. Só quero saber o que ele ganha.

— Não sei.

— Você! Jure pelo seu amor e pelo seu Deus.

— Até você? — replicou ela amargamente em latim. — Também você com os seus "jure por Deus" e perguntas, perguntas, perguntas?

— É a sua vida e a minha vida, e eu prezo a ambas. O que ele ganha?

A voz dela soou mais alta. — Ouça, sim, eu escolhi o momento, sim, não sou uma mulher estúpida e...

— Tenha cuidado, Mariko-san, por favor, conserve a voz baixa ou isso seria muito estúpido.

— Desculpe. Sim, foi feito intencionalmente e em público como Toranaga desejava.

— Por quê?

— Porque lshido é um camponês e tem que nos deixar partir. O desafio tinha que ser diante dos seus pares. A Senhora Ochiba aprova que vamos ao encontro do Senhor Toranaga. Conversei com ela e ela não se opõe. Não há nada para perturbá-lo. — Não gosto de vê-Ia inflamada. Ou venenosa. Ou malhumorada. Onde está a sua tranqüilidade? E onde estão as suas maneiras? Talvez você devesse aprender a observar as pedras crescendo. Neh?

A cólera de Mariko desapareceu e ela riu. — Ah! Você tem razão. Por favor, desculpe-me. — Sentiu-se revigorada, ela mesma de novo. — Oh, como o amo, e o honro, e fiquei orgulhosa de você esta noite, quase o beijei, ali na frente deles, como é seu costume.

— Nossa Senhora, isso os teria feito explodir, neh?

— Se eu estivesse sozinha com você, eu o beijaria até que os seus gritos por piedade enchessem o universo.

— Agradeço-lhe, senhora, mas está aí e eu aqui, e o mundo se ergue entre nós.

— Ah, mas não existe mundo entre nós. Minha vida é plena por sua causa.

Um momento depois ele disse: — E as ordens que Yabu lhe deu? De pedir desculpas e ficar?

— Não podem ser obedecidas, sinto muito. — Devido às ordens de Toranaga?

— Sim. Mas não pelas ordens dele, realmente. É a minha vontade, também. Tudo isso foi sugestão minha a ele. Fui eu que implorei para ser autorizada a vir aqui, meu querido. Diante de Deus, é essa a verdade.

— O que acontecerá amanhã?

Ela lhe contou o que dissera a Kiri, acrescentando: — Tudo vai sair melhor do que o planejado. lshido já não é o seu protetor? Juro que não sei como o Senhor Toranaga pode ser tão inteligente. Antes de eu partir ele me contou o que aconteceria, o que poderia acontecer. Sabia que Yabu não tinha poder em Kyushu. Apenas lshido ou Kiyama podiam protegê-lo lá. Não somos engodos. Estamos sob a proteção dele. Totalmente seguros.

— E os dezenove dias, dezoito agora? Toranaga tem que estar aqui, neh?

— Sim.

— Então isso não é, como diz lshido, um desperdício de tempo?

— Realmente não sei. Só sei que dezenove, dezoito ou mesmo três dias podem ser uma eternidade.

— Ou amanhã?

— Amanhã também. Ou o dia seguinte. — E se lshido não a deixar partir amanhã?

— Esta é a única chance que temos. Todos nós. lshido tem que ser humilhado.

— Tem certeza?

— Sim, diante de Deus, Anjin-san.

Blackthorne se arrancou de um pesadelo de novo, mas, no momento em que se viu realmente desperto, o sonho desapareceu. Cinzentos o fitavam de olhos arregalados através do mosquiteiro à luz do amanhecer que despontava.

— Bom dia — disse-lhes ele, odiando ser vigiado durante o sono.

Saiu de sob o mosquiteiro e dirigiu-se para o corredor, desceu as escadas, até atingir o toalete no jardim. Guardas, tanto marrons quanto cinzentos, acompanhavam-no. Ele mal os notava.

O amanhecer estava enevoado. A leste o céu já estava limpo da cerração. O ar cheirava a sal, carregado de maresia. As moscas já enxameavam. Vai fazer calor hoje, pensou ele.

Passos aproximaram-se. Através da abertura da porta, Blackthorne viu Chimmoko. Ela esperou pacientemente, tagarelando com os guardas, e quando ele saiu, curvou-se e saudou-o.

— Onde Mariko-san? — perguntou ele. — Com Kiritsubo-san, Anjin-san.

— Obrigado. Quando parte? — Logo, senhor.

— Diga Mariko-san eu gostaria dizer bom-dia antes partir — disse ele novamente, embora Mariko já tivesse prometido encontrá-lo antes de voltar para casa a fim de reunir seus pertences. — Sim, Anjin-san.