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Começo a lhes dizer que ele não é um navaho, mas, penso, de que adianta se não me ouvem? Não importa a eles qual seja a tribo.

A mulher sorri, balança a cabeça para cada um e seus olhos os unem. E ela começa a andar num passo duro para o carro, falando numa voz despreocupada e jovem:

– Como o meu professor de Sociologia costumava enfatizar, "há, geralmente, em toda situação, uma pessoa cujo poder nunca deve ser subestimado".

E eles voltam para o carro e vão embora, e eu fico ali me perguntando se em algum momento eles me viram.

Eu fiquei, assim, meio espantado por ter-me lembrado daquilo. Era a primeira vez, no que me pareciam séculos, que eu conseguia lembrar-me de tanta coisa da minha infância. Descobrir que eu ainda podia fazê-lo me fascinou. Fiquei deitado na cama acordado, lembrando-me de outros acontecimentos, e mais ou menos naquele momento, enquanto eu estava assim numa espécie de sonho, ouvi um ruído debaixo da minha cama como de um rato. Debrucei-me sobre a beira da cama e vi o brilho de metal a arrancar os pedaços de chicletes que eu conhecia de cor. O crioulo chamado Geever tinha descoberto onde eu vinha escondendo meus chicletes; estava arrancando os pedaços e pondo num saco com o auxílio de uma tesoura comprida e lisa, aberta como mandíbulas.

Saltei para trás, de volta para as cobertas antes que ele me visse olhando. Meu coração estava latejando, nos meus ouvidos, de medo de que ele me tivesse visto. Eu queria dizer a ele que fosse embora, que tratasse da sua vida e que deixasse meus chicletes em paz, mas não podia nem deixar que percebesse que eu o tinha ouvido. Fiquei imóvel, para ver se ele me tinha visto debruçado para espiá-lo debaixo da cama, mas ele não deu nenhum sinal – tudo que eu ouvi foi o zzzzt – zzzzt da tesoura e os pedaços caindo no saco. Lembrou-me o granizo, e da maneira como costumava matraquear no nosso teto de papelão alcatroado. Ele estalou a língua e riu para consigo mesmo.

– Um – ummm. Eu só queria saber quantas vezes esse mudo mastigou esse negócio? Duro desse jeito.

McMurphy ouviu o crioulo a resmungar para consigo mesmo, acordou e se virou, erguendo-se num cotovelo para olhar o que era que ele estava tramando àquela hora, de joelhos debaixo da minha cama. Ele observou o crioulo por um minuto, esfregando os olhos para se assegurar do que estava vendo, do mesmo jeito que a gente vê criança pequena esfregar os olhos. Em seguida se sentou.

– Quero ser o filho de uma cadela se ele não está aqui às onze e meia da noite peidando por aí no escuro, com uma tesoura e um saco de papel. – O crioulo deu um salto e virou a lanterna para os olhos de McMurphy. – Agora diga-me, Sam, que diabo é que você está catando aí escondido no escuro?

– Vá dormir de novo McMurphy. Não é da conta de ninguém.

McMurphy deixou seus lábios se abrirem num sorriso lento, mas não desviou o olhar da luz. O crioulo ficou inquieto depois de meio minuto mantendo aquele foco de luz sobre McMurphy, ali sentado, sobre a cicatriz lustrosa, aqueles dentes e aquela pantera tatuada no ombro dele, e desviou a luz. Tornou a se inclinar para continuar o que estava fazendo, grunhindo e arquejando como se fosse um incrível esforço arrancar chiclete seco.

– Uma das obrigações de um ajudante noturno – explicou ele entre grunhidos, tentando ser simpático – é manter limpo o recinto das camas.

– No meio da noite?

– McMurphy, nós temos uma coisa fixada no quadro chamada Descrição de Trabalho, que diz que a limpeza é um trabalho de vinte-e-quatro horas!

– Você poderia ter feito a tarefa das suas 24 horas antes que viéssemos para a cama, não acha?, em vez de ficar sentado, vendo televisão até as dez e meia. A velha dama Ratched sabe que vocês assistem à TV durante a maior parte do turno? Que é que você acha que ela faria se descobrisse isso?

O crioulo levantou-se e se sentou na beirada da minha cama. Bateu a lanterna nos dentes, rindo sem parar. A luz clareou seu rosto como se fosse um porrete iluminado.

– Bem, deixe que eu lhe conte sobre este chiclete – disse ele e se inclinou mais para perto de McMurphy como um velho camarada. – Sabe, há anos que eu me pergunto onde o chefe Bromden arranja o chiclete dele, sabe, não tendo nenhum dinheiro pra gastar na cantina, nunca tendo ninguém que lhe desse um tostão, que eu visse, nunca pedindo à mulher da Cruz Vermelha… assim, eu fiquei vigiando e esperei. E olhe aqui. – Ele tornou a ficar de joelhos, levantou a ponta do meu lençol e colocou a luz debaixo da cama. – Que é que você acha disso? Aposto que esses pedaços de chicletes aqui debaixo já foram usados mais de mil vezes!

Aquilo divertiu McMurphy. Ele começou a rir. O crioulo levantou o saco e sacudiu. Eles riram mais um pouco. O crioulo deu boa noite a McMurphy e, dobrando a boca do saco como se fosse o seu almoço, saiu para algum lugar, para escondê-lo para mais tarde.

– Chefe? – murmurou McMurphy. – Quero que me diga uma coisa. – E começou a cantar uma musiquinha. uma canção caipira, que havia sido popular há muito tempo: – "Ah, o chiclete de menta perde o gosto se passar a noite na cabeceira da cama?"

No começo, eu fui ficando realmente furioso. Pensei que ele se estivesse divertindo à minha custa, como as outras pessoas faziam.

– "Quando você mastiga de manhã" – cantarolou num sussurro – "está muito duro de morder?"

Mas quanto mais eu pensava naquilo, mais engraçado me parecia. Tentei parar, mas podia sentir que estava a ponto de rir – Não da cantoria de McMurphy, mas de mim mesmo.

– "Esta dúvida vive me aporrinhando, será que ninguém me pode dizer a resposta, o chiclete de menta perde o gosto se passar a noite na cabeceira da caaa-maa?"

Ele sustentou aquela última nota e a fez descer em cima de mim como uma pena, provocando cócegas. Não pude deixar de começar a rir, abafado, e isso me fez ficar com medo de cair na risada e de não conseguir parar. Mas bem nesse instante McMurphy pulou da cama e começou a remexer na mesinha de cabeceira, e eu me calei. Cerrei os dentes, perguntando-me o que fazer agora. Já fazia muito tempo que eu não tinha permitido alguém ouvir de mim algo mais que um grunhido ou um urro. Eu o ouvi fechar a mesinha de cabeceira, e aquilo ecoou como uma porta de caldeira. Eu o ouvi dizer:

– Tome – e alguma coisa caiu em cima da minha cama. Pequena. Do tamanho de um lagarto ou uma cobra…

– Sabor de frutas é o melhor que posso arranjar para você no momento, chefe. Ganhei a caixa do Scanlon acertando moedinhas – disse, e voltou para a cama.

E, antes que eu percebesse o que estava fazendo, ouvi-me a dizer-lhe "obrigado".

Ele nada comentou. Estava apoiado no cotovelo, observando-me como observara o crioulo, esperando que eu dissesse mais alguma coisa. Apanhei a caixa de chicletes, fiquei com ela na mão e repeti "obrigado".

Não soou assim com muita clareza porque a minha garganta estava enferrujada e a minha língua rangia. Ele me disse que eu parecia meio fora de forma, e riu daquilo. Tentei rir com ele, mas saiu um som parecido com um grasnado, como um frango tentando cantar. Parecia mais choro que riso.